Sabe-se que o acolhimento institucional, por si só, representa rupturas na vida das pessoas. Como, então, garantir proteção e fortalecer vínculos nesse contexto? Estivemos em Vitória (ES) no “1º Seminário da Proteção Social Especial de Alta Complexidade” para dialogar sobre este desafio urgente.
O primeiro ponto ético é saber que acolher, por si só, não garante proteção. A separação das relações familiares e comunitárias é, em si, uma fonte de sofrimento. Por isso, o trabalho nesses serviços precisa estar orientado pela pergunta: como apoiar famílias cuidando dos seus membros?
É importante que as práticas das equipes desses serviços sejam sustentadas nas seguranças de convivência e autonomia do SUAS. Essa orientação define se o acolhimento fortalece e amplia as relações de cuidado que são importantes para as pessoas ou, ao contrário, interrompe histórias, projetos e sonhos.
A experiência nos serviços de acolhimento mostra que grande parte das pessoas acompanhadas são negras e de famílias empobrecidas, onde o cuidado é sustentado, em grande parte, pelas mulheres, ou seja, as mães, avós, irmãs ou tias.
Reconhecer as desigualdades raciais que atravessam as famílias é essencial para orientar as decisões de cuidado nos acolhimentos. Quando esse contexto é desconsiderado corre-se o risco de reforçar práticas que reproduzem a ideia de incapacidade da família ou de que o cuidado oferecido no acolhimento representa um modelo a ser seguido pelas famílias.
Convivência e autonomia, nesse contexto, não são conceitos abstratos. São práticas cotidianas que experimentei anos a fio enquanto trabalhei no acolhimento institucional de crianças e adolescentes e pessoas com deficiência, em diversos municípios no interior do estado de São Paulo. Compartilho aqui algumas dicas para orientar o trabalho dos serviços de convivência:
- planejar a permanência e retorno com participação da pessoa acolhida e da família;
- ter uma postura segura com todos os serviços envolvidos para afirmar a direção do trabalho. Essa postura se sustenta no direito à convivência e no respeito do desejo das pessoas sobre suas vidas. Não se trata de concessões, mas de assegurar que as decisões sobre a vida das pessoas possam ser compartilhadas, de maneira respeitosa e comprometida com seus direitos;
- manter as portas abertas às pessoas que são importantes para quem está no acolhimento;
- realizar assembleias para organizar formas de convívio;
- cozinhar coletivamente, compartilhando cotidiano;
- garantir visitas às casas e territórios de vivência.
Quando essas práticas acontecem, os serviços públicos protegem a família para que ela tenha uma rede de apoio para se fortalecer. Quando essas práticas não acontecem, o serviço de acolhimento corre o risco de interromper histórias e produzir a ideia de que ali “se cuida melhor”.
A proteção do SUAS é assim: protegemos as famílias para que elas possam proteger suas pessoas. Não protegemos as pessoas de suas famílias.
Ao final do seminário em que compartilhei essas reflexões e experiências, alguns participantes deram um retorno bastante positivo como “sua fala ampliou meu olhar”, “ você me ajudou a nomear o que eu já sentia no trabalho”. É com reflexão, troca de ideias e compromisso ético que podemos aprimorar o trabalho cotidiano.
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Yheda Gaioli, assistente social, colaboradora da Vira e Mexe









