“Quando saí da cidade CREAS, peguei o ônibus na rodoviária da SECRETARIA com destino à cidade APRENDIZAGEM. Passei por vários pontos de parada. A primeira delas foi o distrito das 7 DESPROTEÇÕES. Fiquei lá por um tempo, até sentir que estava no ‘ABANDONO’. Então segui para a vila das DINÂMICAS. Que lugar lindo e alegre! Mas, como a alegria dura pouco, cheguei à metrópole das ATIVIDADES EM GRUPO e me perdi. Foi quando finalizei minha viagem na companhia de colegas que não fazem parte do meu cotidiano.”
Essa narrativa foi feita por Jair, que é trabalhador do Serviço de Abordagem Social de São Gotardo, em Minas Gerais. Ele é um dos participantes do processo de Educação Permanente realizado pela Vira e Mexe entre outubro de 2025 e abril de 2026, junto às equipes dos serviços socioassistenciais do município mineiro.
A escuta da narrativa de Jair, no encerramento do percurso formativo, nos fez perceber que ela traduzia muito mais do que uma experiência individual. Falava de um deslocamento coletivo. Da trajetória de trabalhadoras e trabalhadores que, ao longo dos encontros, puderam revisitar o cotidiano, reconhecer limites institucionais e, ao mesmo tempo, construir novas possibilidades de atuação conjunta.
O “distrito das 7 desproteções”, a “vila das dinâmicas”, a “metrópole das atividades em grupo” e até a experiência de “se perder” no caminho expressam, de forma criativa e sensível, algo profundamente presente no cotidiano do SUAS: a complexidade de sustentar a proteção social de maneira articulada.
Paulo Freire dizia que a realidade impõe limites, mas que é justamente no reconhecimento desses limites que os sujeitos podem construir o “inédito viável” — as possibilidades coletivas de transformação que ainda não estão dadas, mas que precisam ser produzidas na prática social.
Na Assistência Social, a fragmentação entre serviços permanece como um desafio institucional, porque a construção da proteção exige leitura compartilhada da realidade, corresponsabilização diante dos diagnósticos e capacidade de produzir estratégias coletivas de atuação.
É nesse ponto que a Educação Permanente contribui para a construção dos “inéditos viáveis” de que falava Paulo Freire. Quando trabalhadoras e trabalhadores constroem coletivamente análises sobre seus territórios, identificam demandas comuns, compartilham experiências e experimentam metodologias de atuação conjunta, tornam possível aquilo que antes aparecia apenas como dificuldade cotidiana: a construção de um trabalho articulado entre proteções.
Ao longo do percurso formativo, vimos equipes que antes se reconheciam apenas pelas fronteiras institucionais começarem a construir vínculos, linguagem comum e responsabilidade compartilhada sobre a proteção social no território. E isso transforma o trabalho.
Talvez por isso a paródia criada por um dos grupos, inspirada na canção Tocando em Frente, de Almir Sater, tenha sintetizado tão bem o percurso vivido:
“Na inovação tivemos algo diferente CRAS junto com CREAS aprendendo com a gente […] E ampliamos saberes sobre a proteção, desproteções e histórias mudaram a nossa visão. Cada um de nós aprende com a trajetória e cada equipe carrega em si o dom de ser capaz de melhorar.”
A Educação Permanente produz exatamente isso: condições para que trabalhadoras e trabalhadores transformem experiências fragmentadas em reflexão coletiva e, a partir dela, construam novos modos de sustentar a proteção social no cotidiano.
E você, já se perguntou quais “inéditos viáveis” têm sido construídos pela sua equipe?










