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Cultura e arte como dispositivo de enfrentamento das violências e desigualdades sociais

Autor: Chico Cesar é jornalista, mestre em Serviço Social e mobilizador cultural

1. Convivência, Convívio e Proteção Social

A convivência, segundo Abigail Torres*, é mais do que o simples estar junto. Ela é um campo de construção de vínculos, reconhecimento e reciprocidade — condição essencial para o exercício da proteção social. É na convivência que se tornam possíveis o cuidado, a solidariedade e o fortalecimento do tecido social.

O convívio social implica reconhecer a pessoa na sua integralidade: corpo, emoção, memória e história. No campo da Assistência Social, a convivência é um dos eixos estruturantes das ações com crianças, adolescentes e jovens. Ela permite que o sujeito se reconheça como parte de uma comunidade e, ao mesmo tempo, seja reconhecido em sua singularidade.

Quando aproximamos essa perspectiva do campo da cultura e da arte, percebemos que os espaços culturais das periferias cumprem uma função semelhante à da proteção social: eles produzem pertencimento, abrem caminhos para o diálogo e promovem laços afetivos e comunitários. A cultura, quando vivida coletivamente, é também uma forma de proteção e cuidado.

2. Cultura Periférica e Resistência

A cultura periférica nasce da falta, mas produz abundância simbólica. Ela se constitui como resposta histórica à exclusão, transformando carência em criação e ausência em potência. Nos bairros periféricos, onde o Estado muitas vezes se ausenta, a arte ocupa o papel de mediadora das relações sociais e das possibilidades de existência.

Essas expressões — o grafite, o rap, o funk, a dança, o teatro de rua, as batalhas de rima, os saraus e os slams — são práticas que reconfiguram o território e reinventam o modo de viver e de conviver. Elas não se limitam a “atividades culturais”, mas se afirmam como projetos políticos de cidade e de humanidade.

Na experiência da cultura periférica, o território se converte em palco, a rua em cena e o corpo em instrumento de fala. A arte é um modo de existir coletivamente, um processo que produz dignidade, visibilidade e novas formas de estar no mundo.

3. O Slam como Dispositivo Estético, Político e Pedagógico

Os Slams — batalhas de poesia falada — são uma das expressões mais significativas da cultura periférica contemporânea. Nascidos em Chicago na década de 1980 e trazidos ao Brasil por Roberta Estrela D’Alva em 2008, os Slams se multiplicaram em todas as regiões do país, tornando-se espaços de formação, escuta e empoderamento.

Minha pesquisa acadêmica sobre os Slams em São Paulo demonstra que eles funcionam como dispositivos de resistência, práticas que produzem saber, poder e subjetividade. Nos Slams, a palavra é ferramenta de enfrentamento simbólico contra o racismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, a desigualdade social e a violência do Estado.

Eles cumprem uma função estética, porque ressignificam a linguagem e a oralidade; política, porque criam espaços de fala e denúncia; e pedagógica, porque promovem o letramento, o pensamento crítico e o fortalecimento da autoestima. Cada poeta, ao subir no palco, reivindica o direito de narrar sua própria história, direito este que foi historicamente negado às populações periféricas e negras.

O Slam transforma o “não lugar” da periferia em um lugar de potência. É uma pedagogia da palavra e da escuta, uma pedagogia da convivência e do coletivo. Para além da lógica competitiva, o Slam valoriza o encontro, a emoção e o reconhecimento mútuo.

4. Escrevivência: Palavra, Memória e Cura

A escrita e a fala têm, no contexto da arte periférica, uma dimensão profundamente política e afetiva. Conceição Evaristo nomeia de escrevivência a escrita que nasce da vida, da experiência e da ancestralidade. Escrever — ou falar — é um ato de existência e de resistência.

A escrevivência rompe o silenciamento histórico imposto às mulheres negras, às periferias e às classes populares. Ela não é apenas um relato pessoal, mas uma voz coletiva que emerge das memórias partilhadas.

“A minha escrita é feita de vozes que o tempo calou”, diz Evaristo.

Nas práticas dos Slams, a escrevivência encontra terreno fértil: as poesias declamadas narram dores, dissabores, desigualdades, mas também potências, afetos e esperanças. A palavra se torna cura simbólica e instrumento de transformação. Falar das próprias dores, em público, é um gesto de autonomia — um modo de dizer “eu existo”, “eu importo”, “nós resistimos”.

Essa prática se conecta ao trabalho social quando reconhecemos que permitir a fala e a expressão das pessoas — especialmente das juventudes — é uma forma de fortalecer vínculos e promover saúde emocional e social. A escrevivência, portanto, é também metodologia de convivência e proteção.

5. A arte e a Cultura como Dimensão da Proteção Social

A arte, quando inserida nos processos de convivência e trabalho social, atua como dispositivo de enfrentamento das violências e desigualdades. Ela abre espaços para a escuta e para o reconhecimento do outro como sujeito de direitos, de sentimentos e de expressão.

Na perspectiva da convivência, a arte é mediadora de vínculos, promove trocas intergeracionais e dá visibilidade às narrativas silenciadas. As práticas culturais periféricas — como os Slams — materializam o que as políticas públicas muitas vezes anunciam, mas têm dificuldade em efetivar: a proteção social como experiência viva de pertencimento e dignidade.

Quando profissionais da área social incorporam a arte e a cultura ao seu fazer cotidiano, ampliam os horizontes da convivência e transformam os espaços institucionais em territórios de vida, e não apenas de atendimento. A cultura, nesse sentido, é política pública viva, feita de corpos, palavras e encontros.

6. Considerações Finais

A arte periférica expressa uma pedagogia da resistência e da convivência. Ela cria pontes entre o simbólico e o concreto, entre o individual e o coletivo, entre o estético e o político. 

A convivência, conforme Abigail Silvestre Torres, é base da proteção; o Slam, conforme eu observo, é expressão dessa convivência pela via da palavra. Cultura e arte, assim, deixam de ser acessórios e passam a ser estratégias de sobrevivência e afirmação da vida. Como diz Conceição Evaristo “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.”

A palavra, a arte e o convívio — juntos — são dispositivos de resistência e esperança.

*Abigail Torres, sócia diretora da Vira e Mexe, é autora do livro “Convívio, convivência e proteção social – entre relações, reconhecimentos e política pública”

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