Momento de transição na concessão de benefícios eventuais no SUAS

Com o objetivo de compreender como a nova Resolução CNAS nº 213/2025 impactará os municípios e quais desafios se colocam para sua implementação, tenho analisado os documentos legislativos de uma pequena cidade do interior paulista. Esse interesse surgiu após a aula da Profa. Ana Lígia Gomes, especialista no tema, realizada pela Vira e Mexe no início do mês. A seguir, compartilho alguns pontos que sintetizam meu aprendizado até aqui. Percebi um esforço genuíno da gestão municipal em operacionalizar uma política de Assistência Social que concilie o respeito aos direitos das pessoas com a realidade de orçamentos limitados. O município possui decretos recentes que regulamentam a concessão de benefícios eventuais, estabelecendo critérios claros de elegibilidade baseados na comprovação de renda e na identificação de situações de vulnerabilidade. Há também uma preocupação evidente em priorizar o atendimento às mulheres, especialmente aquelas responsáveis por unidades familiares. No entanto, ao observar mais atentamente, identifiquei algumas lacunas importantes: os critérios permanecem fortemente centrados em indicadores econômicos e há pouca evidência de que esteja sendo realizada uma avaliação socioassistencial qualificada e integral — exatamente o tipo de abordagem que a Profa. Ana Lígia enfatiza em suas aulas. Existe, portanto, uma defasagem entre a intenção normativa local ... Continuar Lendo

Práticas de cuidado no SUAS

Para refletir sobre práticas de cuidado no SUAS e como desenvolver ações coerentes com a direção de proteção dessa política pública, consideramos estratégico afirmar a sua especificidade. Pois, assim como outras atenções necessárias aos direitos humanos, as práticas de cuidado estão presentes em diferentes políticas públicas. Como política setorial, o SUAS mantém suas características para responder às necessidades humanas. E para dar conta dessa tarefa, os serviços socioassistenciais cuidam do sofrimento humano na sua dimensão relacional, conhecendo e enfrentando os impactos da desigualdade que gera diferentes vivências nas pessoas como humilhações, desqualificações e outros tipos de violências. Essas vivências ou sofrimentos sociais devem ser cuidadas nos serviços por meio de ações que visam garantir as seguranças de convivência, de acolhida e de autonomia. As estratégias de cuidado são as mais diversas possíveis e não estão restritas à escuta, momento que normalmente identificamos como acolhedor e protetivo. Por fim, cuidado é respeito à dor e à humanidade das pessoas e a proteção tem a ver com reconhecer necessidades e não ser indiferente a elas. Lembrando que, humanizar a atenção para fazer companhia, para dividir responsabilidades de cuidados, para proteger, não se confunde com tutela. É a demanda expressa por sujeitos que ... Continuar Lendo

Práticas fortalecedoras de convivência e autonomia nos serviços de acolhimento

Sabe-se que o acolhimento institucional, por si só, representa rupturas na vida das pessoas. Como, então, garantir proteção e fortalecer vínculos nesse contexto? Estivemos em Vitória (ES) no “1º Seminário da Proteção Social Especial de Alta Complexidade” para dialogar sobre este desafio urgente. O primeiro ponto ético é saber que acolher, por si só, não garante proteção. A separação das relações familiares e comunitárias é, em si, uma fonte de sofrimento. Por isso, o trabalho nesses serviços precisa estar orientado pela pergunta: como apoiar famílias cuidando dos seus membros? É importante que as práticas das equipes desses serviços sejam sustentadas nas seguranças de convivência e autonomia do SUAS. Essa orientação define se o acolhimento fortalece e amplia as relações de cuidado que são importantes para as pessoas ou, ao contrário, interrompe histórias, projetos e sonhos. A experiência nos serviços de acolhimento mostra que grande parte das pessoas acompanhadas são negras e de famílias empobrecidas, onde o cuidado é sustentado, em grande parte, pelas mulheres, ou seja, as mães, avós, irmãs ou tias. Reconhecer as desigualdades raciais que atravessam as famílias é essencial para orientar as decisões de cuidado nos acolhimentos. Quando esse contexto é desconsiderado corre-se o risco de reforçar ... Continuar Lendo

O que é autonomia na Assistência Social, afinal?

Na Assistência Social é muito comum ouvirmos que os cidadãos alcançam autonomia quando não precisam mais receber um benefício material, como o Bolsa Família. O equívoco desta compreensão, que associa autonomia a padrão indigno de renda, é facilmente refutado pela própria lei do Sistema Único de Assistência Social (Lei 12.435/2011): Artigo 2º. Parágrafo único.  Para o enfrentamento da pobreza, a assistência social realiza-se de forma integrada às políticas setoriais. Lamentavelmente, a lei nem sempre tem sido farol para orientar as decisões e as práticas no SUAS e atualiza-se a ilusão de que a pobreza é uma questão social e não resultado do modelo econômico desigual e perverso que vivemos. Nós, da Vira e Mexe, temos o compromisso ético de levar informação de qualidade, em linguagem simples e compreensível para todos: gestores, trabalhadores, conselheiros, usuários e legisladores. Por isso, em inúmeros seminários, oficinas e conferências buscamos explicar o que é o conceito de autonomia na Assistência Social. Inúmeros estudos, inclusive do SUS, e referências normativas do SUAS dão sustentação para a definição de autonomia como um feixe de três ideias intimamente conectadas: Autonomia como aquisição Aquisição, na Assistência Social, “são ganhos não monetários que os cidadãos devem ter ao frequentar os ... Continuar Lendo

Como estudar serve para se comprometer com a vida que pulsa?

Nos grupos de estudo desenvolvidos pela Vira e Mexe, estudar não é apenas ler ou discutir textos, é um compromisso com a vida que pulsa nos territórios, com os desafios que se apresentam nas histórias, nos relatos dos participantes e nas experiências concretas das pessoas atendidas pelos serviços. A cada encontro, buscamos dialogar com a teoria e com a prática, aprendendo com os saberes que já existem e com as ações que já estão sendo realizadas. É nesse espaço que o estudo se transforma em reflexão, inspiração e ação. Como diz bell hooks, intelectual negra americana: “Têm acontecido muitos momentos silenciosos, mas radicais e revolucionários, de transformação de pensamento e de ação. […] Quando apenas apontamos o problema, quando expressamos nossa queixa sem foco construtivo na resolução, afastamos a esperança.” Uma dessas experiências foi compartilhada em vídeo pelo educador Bim, trabalhador de um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos em Belo Horizonte. Ele relata a vivência de um adolescente que compartilhou com o grupo a dor de ter sua casa invadida pela polícia — uma realidade muito presente nas periferias brasileiras. Trouxemos esse relato “silencioso, mas radical e revolucionário” como inspiração para reafirmar três dimensões essenciais do planejamento no ... Continuar Lendo

Conferências Estaduais do SUAS: planejar para enfrentar desigualdades regionais

Conhecer e enfrentar as desigualdades regionais brasileiras segue sendo um grande desafio para as equipes de gestão das políticas sociais. Por isso, é tão essencial reconhecer as barreiras de acesso aos serviços públicos, tanto para cidadãos que vivem nas grandes cidades, como também aqueles que vivem nos municípios pequenos, que são a maioria em nosso país. As conferências de políticas públicas são espaços de escuta, análise e elaboração de propostas coletivas, a partir das perspectivas de gestoras(es), trabalhadoras(es) e usuárias(os). Por isso, são um momento especial para um planejamento participativo condizente com as diferentes realidades municipais e regionais. As conferências estaduais de Assistência Social, que estão acontecendo nos meses de outubro e novembro, são uma oportunidade de conhecer as desigualdades regionais pela vocalização das pessoas que, por terem participado das conferências municipais, trazem a realidade dos seus municípios, suas potências e seus desafios. As sócias diretoras da Vira e Mexe, Abigail Torres e Stela Ferreira, estão participando das conferências do Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná e Espírito Santo. Nesses espaços, estão levando informações e reflexões que permitem aprofundar aspectos estratégicos para o enfrentamento das desigualdades regionais, como: Acreditamos que é possível desenvolver e aprimorar competências para conhecer e enfrentar as ... Continuar Lendo

Estudar: um dever revolucionário

Esta frase do texto “O ato de estudar”, do livro Ação Cultural para a Liberdade, de Paulo Freire (1968), nos inspira e ressoa na metodologia do Grupo de Estudos que desenvolvemos na Vira e Mexe. Hoje, de forma mais urgente, vemos que é necessário diferenciar os conhecimentos consistentes e que nos ajudam a pensar a realidade em que vivemos e trabalhamos, daqueles conteúdos rasos que, frequentemente, circulam nas redes sociais e nos capturam em respostas fáceis e insuficientes. A ideia do conteúdo como uma mercadoria para ser consumida rapidamente, subestimando nossa capacidade de criação, nos distancia cada vez mais da nossa condição de sujeito capaz de produzir conhecimento vivo, contextualizado e capaz de transformar e construir novas realidades. Sabemos da complexidade das situações com as quais as equipes das políticas públicas lidam no dia a dia. E lidar com essas complexidades demanda fazer conexões entre diferentes saberes, atitudes e habilidades. Sabemos também que as formas de resolução dos problemas com os quais as equipes lidam geram, frequentemente, inseguranças, conflitos internos e desmotivação. Por isso, nos dedicamos à construção de uma metodologia de estudos que traz conhecimentos científicos relevantes para compreender o impacto das desigualdades sociais; promove espaço de diálogo para ... Continuar Lendo

Assistência Social não é favor, é direito

Uma das faces da desigualdade social mais associada à política pública de Assistência Social tem sido a entrega de benefícios materiais, como cestas básicas, enxovais de bebês, urnas funerárias, colchões e kits de higiene em situações de calamidade, entre outros. Essa visão é, em grande medida, construída pela observação de práticas institucionais e pelo histórico dos benefícios assistenciais nos municípios brasileiros. Recentemente, dialogamos sobre isso no seminário regional “SUAS na Prática”, realizado em Ilha Solteira (SP). Neste texto trago algumas reflexões para ampliar a compreensão sobre o direito aos benefícios na Assistência Social a partir de um conceito de Chimamanda Adichie, escritora nigeriana, quando ela explica que “a história única cria estereótipos” em uma palestra do TED Talks, com milhões de visualizações. No caso dos benefícios materiais concedidos pela Assistência Social, a associação entre pobreza material e estigmas morais construiu uma “história única” repleta de estereótipos sobre aqueles que acessam tais benefícios, por exemplo, “são pessoas pobres que se acomodam com benefícios do governo; que mentem para poder acessar os benefícios; que preferem receber os benefícios a trabalhar.” Todas essas histórias únicas partem de um ponto: a negação de qualquer possibilidade de reconhecimento do outro como um ser humano igual ... Continuar Lendo

Intersetorialidade – admiração pela diferença

Tenho me dedicado a compreender mais profundamente a política de Assistência Social e sua atuação no enfrentamento às desproteções relacionais. Ao participar recentemente de um seminário na área de Educação, pude refletir sobre a necessária articulação entre profissionais da Assistência Social e da Educação para o enfrentamento do racismo institucional que permeia as instituições das duas políticas. Participei do V Seminário Internacional de Gestão Educacional – Recomposição e Avanço das Aprendizagens, promovido pelo Instituto Unibanco , em 28 de agosto. O encontro debateu a recomposição da aprendizagem como uma questão de grande relevância a partir da pandemia, dada a grave defasagem vivenciada por estudantes no Brasil e no mundo. Na abertura, Ricardo Henriques, superintendente do Instituto, chamou a atenção para um dado alarmante: em 2023, apenas 7% dos concluintes da educação básica apresentavam aprendizado adequado em matemática. Foram apresentados dados e narrados episódios que sustentam essa percepção: crianças e adolescentes negros têm uma aprendizagem 20% menor que os brancos, conforme evidenciado no SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica). Não pretendo refletir sobre todos os aspectos tratados no seminário, mas gostaria de destacar um ponto que tocou profundamente meus afetos e pensamentos. No evento, tive a oportunidade de ouvir a especialista ... Continuar Lendo

Territórios e proteção social pública

Ao participar recentemente do seminário “Territórios, vínculos comunitários e proteção social”, a convite da Prefeitura de Belo Horizonte, fiz a mim mesma a seguinte pergunta: como abordar a complexidade deste tema e, ao mesmo tempo, aprofundar a reflexão sobre a responsabilidade específica da política pública de Assistência Social? Sabemos que muitos movimentos sociais deixaram o legado do direito à convivência comunitária como marca nas diferentes políticas públicas setoriais, como saúde, educação, assistência social e habitação. O direito à convivência também está nas chamadas políticas transversais como direitos de crianças e adolescentes, pessoas idosas e pessoas com deficiência. Portanto, é preciso dizer o óbvio: trabalhar na perspectiva territorial não é exclusividade da proteção social pública da assistência social. Disso resulta a questão: então, qual seria a especificidade da Assistência Social em sua atuação nos territórios? Havia recentemente revisitado o Museu Inhotim, em Brumadinho (MG) e ainda estava reverberando em mim a obra (instalação e poema) “O Barco” da artista portuguesa com raízes em Angola e São Tomé e Príncipe, que está em exposição lá. Assim, tomei a imagem de um barco, símbolo de um lugar de deslocamento, para iniciar a prosa. E, como a arte tem o poder de ampliar os ... Continuar Lendo