A esperança vira prática: o que 2025 nos ensinou sobre transformar o SUAS por dentro

O escritor Ariano Suassuna dizia que não era otimista nem pessimista: “sou um realista esperançoso”. Ao revisitar as atividades de 2025 para planejar 2026, percebemos que essa ideia acompanhou cada etapa do trabalho desenvolvido com as equipes ao longo do ano. Em diferentes processos formativos, escutamos devolutivas que sintetizam o impacto vivido: “Saio daqui com um novo olhar, mais esperançosa sobre o meu trabalho.” Comentários simples, mas profundamente reveladores de uma das principais realizações da Vira e Mexe em 2025: profissionais do SUAS reconhecendo que podem olhar e atuar na realidade com mais esperança — não porque ela tenha se tornado menos complexa, mas porque passaram a se sentir mais seguros, mais preparados e com mais repertório para agir. As razões dessa transformação são múltiplas. Ao longo do ano, as equipes compreenderam com mais profundidade a finalidade do trabalho social, a função da política pública, os direitos das pessoas e as dinâmicas dos territórios. Aproximaram-se mais da população e foram tocadas pela força cotidiana de quem luta por dignidade. Esse conjunto de experiências ativou um movimento de renovação profissional que aparece nos relatos: “Agora tenho mais argumentos para articular o planejamento com toda a equipe, mesmo diante das urgências do ... Continuar Lendo

Reordenamento dos serviços de convivência no SUAS: para reduzir a distância entre a concepção e operação

O convite de hoje é para que equipes de gestão e dos serviços possam  conhecer a análise que faço voltada a identificar potências e desafios do processo de reordenamento dos serviços de convivência no SUAS, para que não esqueçamos a finalidade da proteção, a direção de universalidade e o propósito de ampliar a experiência do respeito, da horizontalidade e da participação como vivências basilares do direito à assistência social.  O desdobramento desse raciocínio está presente na reflexão que fiz no Seminário Nacional em 2023, evento que marcou os 10 anos da concepção de convivência no SUAS e do processo de reordenamento dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Segue abaixo um trecho do artigo. É oportuno recuperarmos os consensos históricos que dão sustentação à atual configuração da proteção pública brasileira, para que sejam conhecidos de todas as pessoas responsáveis pela consolidação desse compromisso histórico.  (…)  É preciso aprofundar entendimentos sobre conceitos para que se possa avançar no reconhecimento da responsabilidade social estatal quanto ao campo de provisão específica de assistência social. Nessa direção, um desses conceitos que expressam consensos é o das seguranças socioassistenciais, que se mostraram fortes para adensar a especificidade dessa política setorial no âmbito da Seguridade ... Continuar Lendo

Apoio técnico no SUAS – responsabilidade das Secretarias Estaduais

No âmbito do SUAS, o apoio técnico aos municípios não é uma tarefa acessória. Trata-se de uma função estratégica das Secretarias Estaduais de Assistência Social, diretamente vinculada às responsabilidades de coordenação, cooperação e indução da política pública nos territórios. Para quem atua na gestão estadual — e para as equipes técnicas que sustentam esse trabalho cotidianamente — é fundamental lembrar que essa atribuição está expressamente prevista na NOB/SUAS 2012 (Resolução CNAS nº 33/2012). Ao organizar competências e relações interfederativas, a normativa reafirma o papel do Estado no fortalecimento da gestão municipal e no desenvolvimento do SUAS. A questão central, no entanto, não é apenas fazer apoio técnico, mas como esse apoio é realizado. Quando o apoio se restringe a orientações prescritivas, checklists ou à cobrança de conformidades, tende a produzir apenas ajustes pontuais e respostas burocráticas. Ainda que necessárias em determinados momentos, essas práticas são insuficientes para enfrentar os desafios estruturais da política. O apoio técnico pode — e deve — ir além. Sustentado por uma perspectiva democrática de trabalho, que envolve cogestão, processos formativos e compromisso com o cotidiano real das equipes, o apoio técnico tem potência para se constituir como um verdadeiro dispositivo de transformação institucional. Nos estudos ... Continuar Lendo

A potência dos encontros que ampliam repertórios e fortalecem a proteção social

É junto dos bão que a gente fica mió (Guimarães Rosa) Nos últimos dois meses, tive o privilégio de participar de encontros regionais e estaduais promovidos por diferentes instituições, muitos deles voltados às novas gestoras e gestores municipais. Foram espaços plurais de diálogo, nos quais emergiram temas igualmente diversos — e profundamente estratégicos. Destaco, entre eles, a luta permanente por um SUAS antirracista; a centralidade do direito como fundamento para fortalecer a proteção pública; a articulação entre serviços como caminho para ampliar a potência do SUAS; e a convivência democrática e horizontal como método essencial para produzir uma atenção de qualidade. Mais do que os conteúdos debatidos, o que desejo sublinhar é a alegria imensa que esses encontros produzem. Alegria por reconhecer quem segue na luta conosco; por ampliar repertórios e argumentos; por entrar em contato com práticas potentes que nos inspiram; e, sobretudo, porque esses espaços são atravessados por afeto, reconhecimento e solidariedade. Em uma trincheira tão intensa e repleta de desafios quanto a defesa do lugar dos serviços socioassistenciais na proteção pública — e da qualidade necessária dessa atenção para materializar o direito à vida com dignidade —, esses encontros nos sustentam. Foi nesse contexto que pude abraçar ... Continuar Lendo

Educação Permanente: formação para redesenhar o PAIF e o PAEFI em Minas Gerais

De julho de 2024 a julho de 2025, a Vira e Mexe conduziu uma jornada de formação que nos marcou profundamente: 150 profissionais da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese) foram capacitados para reimaginar o trabalho com famílias no PAIF e no PAEFI. Não se tratou de um curso tradicional — foi uma experiência de ruptura, construída para transformar práticas, leituras de território e modos de atuação. A formação foi estruturada em três turmas sequenciais, todas ancoradas em princípios de educação permanente e participação ativa. Cada grupo percorreu um ciclo desenhado com intencionalidade pedagógica: – 24 horas de oficinas presenciais intensivas, – 16 horas de seminários virtuais com metodologias colaborativas, – ciclos de estudo orientados, – diálogos contínuos entre teoria e prática. Cada encontro fez a ponte entre conceitos e a vida real dos CRAS, CREAS, territórios, equipes e famílias — os lugares onde a política de Assistência Social realmente acontece. O eixo que guiou todo o percurso foi uma convicção simples e profunda que orienta os trabalhos da Vira e Mexe: educação permanente só tem sentido quando nasce dos desafios concretos do trabalho. Por isso, exploramos temas estruturantes como segurança relacional, desproteções relacionais e a ... Continuar Lendo

Momento de transição na concessão de benefícios eventuais no SUAS

Com o objetivo de compreender como a nova Resolução CNAS nº 213/2025 impactará os municípios e quais desafios se colocam para sua implementação, tenho analisado os documentos legislativos de uma pequena cidade do interior paulista. Esse interesse surgiu após a aula da Profa. Ana Lígia Gomes, especialista no tema, realizada pela Vira e Mexe no início do mês. A seguir, compartilho alguns pontos que sintetizam meu aprendizado até aqui. Percebi um esforço genuíno da gestão municipal em operacionalizar uma política de Assistência Social que concilie o respeito aos direitos das pessoas com a realidade de orçamentos limitados. O município possui decretos recentes que regulamentam a concessão de benefícios eventuais, estabelecendo critérios claros de elegibilidade baseados na comprovação de renda e na identificação de situações de vulnerabilidade. Há também uma preocupação evidente em priorizar o atendimento às mulheres, especialmente aquelas responsáveis por unidades familiares. No entanto, ao observar mais atentamente, identifiquei algumas lacunas importantes: os critérios permanecem fortemente centrados em indicadores econômicos e há pouca evidência de que esteja sendo realizada uma avaliação socioassistencial qualificada e integral — exatamente o tipo de abordagem que a Profa. Ana Lígia enfatiza em suas aulas. Existe, portanto, uma defasagem entre a intenção normativa local ... Continuar Lendo

Práticas de cuidado no SUAS

Para refletir sobre práticas de cuidado no SUAS e como desenvolver ações coerentes com a direção de proteção dessa política pública, consideramos estratégico afirmar a sua especificidade. Pois, assim como outras atenções necessárias aos direitos humanos, as práticas de cuidado estão presentes em diferentes políticas públicas. Como política setorial, o SUAS mantém suas características para responder às necessidades humanas. E para dar conta dessa tarefa, os serviços socioassistenciais cuidam do sofrimento humano na sua dimensão relacional, conhecendo e enfrentando os impactos da desigualdade que gera diferentes vivências nas pessoas como humilhações, desqualificações e outros tipos de violências. Essas vivências ou sofrimentos sociais devem ser cuidadas nos serviços por meio de ações que visam garantir as seguranças de convivência, de acolhida e de autonomia. As estratégias de cuidado são as mais diversas possíveis e não estão restritas à escuta, momento que normalmente identificamos como acolhedor e protetivo. Por fim, cuidado é respeito à dor e à humanidade das pessoas e a proteção tem a ver com reconhecer necessidades e não ser indiferente a elas. Lembrando que, humanizar a atenção para fazer companhia, para dividir responsabilidades de cuidados, para proteger, não se confunde com tutela. É a demanda expressa por sujeitos que ... Continuar Lendo

Práticas fortalecedoras de convivência e autonomia nos serviços de acolhimento

Sabe-se que o acolhimento institucional, por si só, representa rupturas na vida das pessoas. Como, então, garantir proteção e fortalecer vínculos nesse contexto? Estivemos em Vitória (ES) no “1º Seminário da Proteção Social Especial de Alta Complexidade” para dialogar sobre este desafio urgente. O primeiro ponto ético é saber que acolher, por si só, não garante proteção. A separação das relações familiares e comunitárias é, em si, uma fonte de sofrimento. Por isso, o trabalho nesses serviços precisa estar orientado pela pergunta: como apoiar famílias cuidando dos seus membros? É importante que as práticas das equipes desses serviços sejam sustentadas nas seguranças de convivência e autonomia do SUAS. Essa orientação define se o acolhimento fortalece e amplia as relações de cuidado que são importantes para as pessoas ou, ao contrário, interrompe histórias, projetos e sonhos. A experiência nos serviços de acolhimento mostra que grande parte das pessoas acompanhadas são negras e de famílias empobrecidas, onde o cuidado é sustentado, em grande parte, pelas mulheres, ou seja, as mães, avós, irmãs ou tias. Reconhecer as desigualdades raciais que atravessam as famílias é essencial para orientar as decisões de cuidado nos acolhimentos. Quando esse contexto é desconsiderado corre-se o risco de reforçar ... Continuar Lendo

O que é autonomia na Assistência Social, afinal?

Na Assistência Social é muito comum ouvirmos que os cidadãos alcançam autonomia quando não precisam mais receber um benefício material, como o Bolsa Família. O equívoco desta compreensão, que associa autonomia a padrão indigno de renda, é facilmente refutado pela própria lei do Sistema Único de Assistência Social (Lei 12.435/2011): Artigo 2º. Parágrafo único.  Para o enfrentamento da pobreza, a assistência social realiza-se de forma integrada às políticas setoriais. Lamentavelmente, a lei nem sempre tem sido farol para orientar as decisões e as práticas no SUAS e atualiza-se a ilusão de que a pobreza é uma questão social e não resultado do modelo econômico desigual e perverso que vivemos. Nós, da Vira e Mexe, temos o compromisso ético de levar informação de qualidade, em linguagem simples e compreensível para todos: gestores, trabalhadores, conselheiros, usuários e legisladores. Por isso, em inúmeros seminários, oficinas e conferências buscamos explicar o que é o conceito de autonomia na Assistência Social. Inúmeros estudos, inclusive do SUS, e referências normativas do SUAS dão sustentação para a definição de autonomia como um feixe de três ideias intimamente conectadas: Autonomia como aquisição Aquisição, na Assistência Social, “são ganhos não monetários que os cidadãos devem ter ao frequentar os ... Continuar Lendo

Como estudar serve para se comprometer com a vida que pulsa?

Nos grupos de estudo desenvolvidos pela Vira e Mexe, estudar não é apenas ler ou discutir textos, é um compromisso com a vida que pulsa nos territórios, com os desafios que se apresentam nas histórias, nos relatos dos participantes e nas experiências concretas das pessoas atendidas pelos serviços. A cada encontro, buscamos dialogar com a teoria e com a prática, aprendendo com os saberes que já existem e com as ações que já estão sendo realizadas. É nesse espaço que o estudo se transforma em reflexão, inspiração e ação. Como diz bell hooks, intelectual negra americana: “Têm acontecido muitos momentos silenciosos, mas radicais e revolucionários, de transformação de pensamento e de ação. […] Quando apenas apontamos o problema, quando expressamos nossa queixa sem foco construtivo na resolução, afastamos a esperança.” Uma dessas experiências foi compartilhada em vídeo pelo educador Bim, trabalhador de um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos em Belo Horizonte. Ele relata a vivência de um adolescente que compartilhou com o grupo a dor de ter sua casa invadida pela polícia — uma realidade muito presente nas periferias brasileiras. Trouxemos esse relato “silencioso, mas radical e revolucionário” como inspiração para reafirmar três dimensões essenciais do planejamento no ... Continuar Lendo