Comunicação e produção de autonomia na Assistência Social

A comunicação pública costuma ser associada quase exclusivamente à comunicação de governos — campanhas eleitorais, peças institucionais e divulgação de realizações. No entanto, ao escutar mais de perto as equipes que atuam na Assistência Social, torna-se evidente uma dimensão ainda pouco valorizada: a comunicação como direito humano dos cidadãos e como parte constitutiva do trabalho de agentes públicos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos define o direito à comunicação como aquele que assegura a liberdade de expressão, permitindo a todas as pessoas buscar, receber e difundir informações. No Brasil, esse reconhecimento ganhou densidade na Constituição Federal do Brasil, na Lei de Acesso à Informação, na criação de conselhos de políticas públicas e nas diretrizes de políticas setoriais como a saúde mental e a assistência social. Em todas elas há um horizonte comum: ampliar a participação de grupos historicamente destituídos do poder de fala. É necessário e urgente deslocar o eixo da comunicação pública. Ela não pode ser pensada apenas na direção de quem “informa” a população, mas também — e sobretudo — na direção de quem se deixa “informar” por ela. A intelectual e escritora afro-americana bell hooks nos ensina que a comunicação deve ser orientada por uma “dedicação coletiva ... Continuar Lendo

Planejar para conhecer, conhecer para intervir: quando Básica e Especial se unem para proteger

Em novembro de 2025, iniciamos um percurso de educação permanente junto às equipes dos serviços da Proteção Social Básica e da Proteção Social Especial do município de São Gotardo, no interior de Minas Gerais. Ao longo dos encontros, trabalhadoras e trabalhadores dos serviços e da gestão municipal vêm construindo entendimentos comuns sobre a especificidade do trabalho no âmbito do SUAS. Nesse processo, as desproteções relacionais foram afirmadas como foco central da atuação, com o reconhecimento de que o abandono, o preconceito e a violência atravessam tanto os serviços da básica quanto da especial. Ganhou força, assim, a avaliação de que é necessário nomear essas desproteções para ampliar o olhar sobre as situações vividas pela população. Isto qualifica os modos de intervenção e contribui para definir com mais nitidez o lugar da política de Assistência Social. As equipes também identificaram no processo de formação, a construção de um repertório mais consolidado para compreender os impactos dessas desproteções nas relações familiares. Ao mesmo tempo, reconhecem limites para analisar como elas se expressam nas relações comunitárias e na relação da população com os serviços públicos. Tornar esse limite visível não apareceu como fragilidade, mas como um ponto de virada importante do percurso formativo, ... Continuar Lendo

Entre a folia e a proteção: a articulação intersetorial que fortalece direitos no Carnaval de Belo Horizonte

O Carnaval é, por excelência, uma celebração coletiva. Mas é também uma oportunidade estratégica para que a gestão pública organize e implemente ações de formação cidadã, cuidado e proteção social. Em Belo Horizonte, a realização do Carnaval da Cidadania, em 2025, demonstrou que grandes eventos não precisam ser pensados apenas a partir da logística da festa, mas também sob a perspectiva da educação em direitos, da proteção social e da responsabilidade pública. Em 2026, a iniciativa acontece novamente sob a coordenação da Subsecretaria de Direitos Humanos. Para isso, a Prefeitura estruturou uma atuação integrada, envolvendo as áreas de assistência social, direitos humanos, saúde, segurança, mobilidade, fiscalização e cultura. Essa articulação intersetorial tem evidenciado que a proteção de direitos em contextos de grande circulação de pessoas exige planejamento, definição clara de fluxos e formação prévia das equipes. A proteção não acontece por acaso: ela é resultado de coordenação institucional e de presença qualificada no território. No âmbito da assistência social e dos direitos humanos, foram organizados fluxos específicos para o período do Carnaval, com a mobilização de serviços como os CREAS e o fortalecimento das redes de atendimento. Houve capacitação de agentes públicos, conselheiros tutelares, guardas municipais, trabalhadores da folia e ... Continuar Lendo

O que realmente orienta o reordenamento de um serviço?

O que significa reordenamento de serviços no SUAS, afinal? Essa pergunta me acompanha desde que comecei a trabalhar no SUAS. Minha primeira experiência na Assistência Social foi no acolhimento institucional para crianças e adolescentes, justamente no período em que se discutia o reordenamento desses serviços. Naquele momento, eu entendia – como muita gente entende – que reordenar era simplesmente colocar em ordem. O dicionário até confirma essa ideia. Mas a prática logo trouxe perguntas que me atravessaram: o que, afinal, precisa ser colocado em ordem? E, principalmente, quem define essa ordem? No início, eu acreditava que a resposta viria exclusivamente de fora: do Estatuto da Criança e do Adolescente, das normativas, da minha própria formação profissional. Como quase sempre acontece, começamos pelo que sabemos nomear: a estrutura física, a composição da equipe e os fluxos de trabalho. Também repetíamos, com segurança, os jargões que aprendemos: “o acolhimento é a última medida”, “é excepcional e provisório”. Mas a realidade do serviço mostrou outra coisa. Tudo aquilo que eu sabia era insuficiente. E aqui falo de insuficiência não como fracasso, mas como um convite — duro e necessário — para aprender a fazer de outro jeito: partindo de quem vive o serviço. ... Continuar Lendo

Planejar para conhecer, conhecer para intervir: Quando básica e especial se encontram para proteger.

Em novembro de 2025, iniciamos um percurso de educação permanente junto às equipes dos serviços da Proteção Social Básica e da Proteção Social Especial do município de São Gotardo, no interior de Minas Gerais. Ao longo dos encontros, trabalhadoras e trabalhadores dos serviços e da gestão municipal vêm construindo entendimentos comuns sobre a especificidade do trabalho no âmbito do SUAS.  Nesse processo, as desproteções relacionais foram afirmadas como foco central da atuação, com o reconhecimento de que o abandono, o preconceito e a violência atravessam tanto os serviços da básica quanto da especial.  Ganhou força, assim, a avaliação de que é necessário nomear essas desproteções para ampliar o olhar sobre as situações vividas pela população. Isto qualifica os modos de intervenção e contribui para definir com mais nitidez o lugar da política de Assistência Social. As equipes também identificaram no processo de formação, a construção de um repertório mais consolidado para compreender os impactos dessas desproteções nas relações familiares. Ao mesmo tempo, reconhecem limites para analisar como elas se expressam nas relações comunitárias e na relação da população com os serviços públicos. Tornar esse limite visível não apareceu como fragilidade, mas como um ponto de virada importante do percurso formativo, ... Continuar Lendo

A esperança vira prática: o que 2025 nos ensinou sobre transformar o SUAS por dentro

O escritor Ariano Suassuna dizia que não era otimista nem pessimista: “sou um realista esperançoso”. Ao revisitar as atividades de 2025 para planejar 2026, percebemos que essa ideia acompanhou cada etapa do trabalho desenvolvido com as equipes ao longo do ano. Em diferentes processos formativos, escutamos devolutivas que sintetizam o impacto vivido: “Saio daqui com um novo olhar, mais esperançosa sobre o meu trabalho.” Comentários simples, mas profundamente reveladores de uma das principais realizações da Vira e Mexe em 2025: profissionais do SUAS reconhecendo que podem olhar e atuar na realidade com mais esperança — não porque ela tenha se tornado menos complexa, mas porque passaram a se sentir mais seguros, mais preparados e com mais repertório para agir. As razões dessa transformação são múltiplas. Ao longo do ano, as equipes compreenderam com mais profundidade a finalidade do trabalho social, a função da política pública, os direitos das pessoas e as dinâmicas dos territórios. Aproximaram-se mais da população e foram tocadas pela força cotidiana de quem luta por dignidade. Esse conjunto de experiências ativou um movimento de renovação profissional que aparece nos relatos: “Agora tenho mais argumentos para articular o planejamento com toda a equipe, mesmo diante das urgências do ... Continuar Lendo

Reordenamento dos serviços de convivência no SUAS: para reduzir a distância entre a concepção e operação

O convite de hoje é para que equipes de gestão e dos serviços possam  conhecer a análise que faço voltada a identificar potências e desafios do processo de reordenamento dos serviços de convivência no SUAS, para que não esqueçamos a finalidade da proteção, a direção de universalidade e o propósito de ampliar a experiência do respeito, da horizontalidade e da participação como vivências basilares do direito à assistência social.  O desdobramento desse raciocínio está presente na reflexão que fiz no Seminário Nacional em 2023, evento que marcou os 10 anos da concepção de convivência no SUAS e do processo de reordenamento dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Segue abaixo um trecho do artigo. É oportuno recuperarmos os consensos históricos que dão sustentação à atual configuração da proteção pública brasileira, para que sejam conhecidos de todas as pessoas responsáveis pela consolidação desse compromisso histórico.  (…)  É preciso aprofundar entendimentos sobre conceitos para que se possa avançar no reconhecimento da responsabilidade social estatal quanto ao campo de provisão específica de assistência social. Nessa direção, um desses conceitos que expressam consensos é o das seguranças socioassistenciais, que se mostraram fortes para adensar a especificidade dessa política setorial no âmbito da Seguridade ... Continuar Lendo

Apoio técnico no SUAS – responsabilidade das Secretarias Estaduais

No âmbito do SUAS, o apoio técnico aos municípios não é uma tarefa acessória. Trata-se de uma função estratégica das Secretarias Estaduais de Assistência Social, diretamente vinculada às responsabilidades de coordenação, cooperação e indução da política pública nos territórios. Para quem atua na gestão estadual — e para as equipes técnicas que sustentam esse trabalho cotidianamente — é fundamental lembrar que essa atribuição está expressamente prevista na NOB/SUAS 2012 (Resolução CNAS nº 33/2012). Ao organizar competências e relações interfederativas, a normativa reafirma o papel do Estado no fortalecimento da gestão municipal e no desenvolvimento do SUAS. A questão central, no entanto, não é apenas fazer apoio técnico, mas como esse apoio é realizado. Quando o apoio se restringe a orientações prescritivas, checklists ou à cobrança de conformidades, tende a produzir apenas ajustes pontuais e respostas burocráticas. Ainda que necessárias em determinados momentos, essas práticas são insuficientes para enfrentar os desafios estruturais da política. O apoio técnico pode — e deve — ir além. Sustentado por uma perspectiva democrática de trabalho, que envolve cogestão, processos formativos e compromisso com o cotidiano real das equipes, o apoio técnico tem potência para se constituir como um verdadeiro dispositivo de transformação institucional. Nos estudos ... Continuar Lendo

A potência dos encontros que ampliam repertórios e fortalecem a proteção social

É junto dos bão que a gente fica mió (Guimarães Rosa) Nos últimos dois meses, tive o privilégio de participar de encontros regionais e estaduais promovidos por diferentes instituições, muitos deles voltados às novas gestoras e gestores municipais. Foram espaços plurais de diálogo, nos quais emergiram temas igualmente diversos — e profundamente estratégicos. Destaco, entre eles, a luta permanente por um SUAS antirracista; a centralidade do direito como fundamento para fortalecer a proteção pública; a articulação entre serviços como caminho para ampliar a potência do SUAS; e a convivência democrática e horizontal como método essencial para produzir uma atenção de qualidade. Mais do que os conteúdos debatidos, o que desejo sublinhar é a alegria imensa que esses encontros produzem. Alegria por reconhecer quem segue na luta conosco; por ampliar repertórios e argumentos; por entrar em contato com práticas potentes que nos inspiram; e, sobretudo, porque esses espaços são atravessados por afeto, reconhecimento e solidariedade. Em uma trincheira tão intensa e repleta de desafios quanto a defesa do lugar dos serviços socioassistenciais na proteção pública — e da qualidade necessária dessa atenção para materializar o direito à vida com dignidade —, esses encontros nos sustentam. Foi nesse contexto que pude abraçar ... Continuar Lendo

Educação Permanente: formação para redesenhar o PAIF e o PAEFI em Minas Gerais

De julho de 2024 a julho de 2025, a Vira e Mexe conduziu uma jornada de formação que nos marcou profundamente: 150 profissionais da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese) foram capacitados para reimaginar o trabalho com famílias no PAIF e no PAEFI. Não se tratou de um curso tradicional — foi uma experiência de ruptura, construída para transformar práticas, leituras de território e modos de atuação. A formação foi estruturada em três turmas sequenciais, todas ancoradas em princípios de educação permanente e participação ativa. Cada grupo percorreu um ciclo desenhado com intencionalidade pedagógica: – 24 horas de oficinas presenciais intensivas, – 16 horas de seminários virtuais com metodologias colaborativas, – ciclos de estudo orientados, – diálogos contínuos entre teoria e prática. Cada encontro fez a ponte entre conceitos e a vida real dos CRAS, CREAS, territórios, equipes e famílias — os lugares onde a política de Assistência Social realmente acontece. O eixo que guiou todo o percurso foi uma convicção simples e profunda que orienta os trabalhos da Vira e Mexe: educação permanente só tem sentido quando nasce dos desafios concretos do trabalho. Por isso, exploramos temas estruturantes como segurança relacional, desproteções relacionais e a ... Continuar Lendo