JunECA – CECONV Morro Santa Maria

A JunECA, realizada no CECONV Morro Santa Maria, em Santos/SP, constituiu a culminância de um percurso socioeducativo desenvolvido no âmbito do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), tendo como eixo central o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ao longo das atividades com os diferentes ciclos etários, foram promovidas vivências que possibilitaram aos participantes conhecer, refletir e dialogar sobre seus direitos, fortalecendo a compreensão do ECA como instrumento de garantia da cidadania e da proteção integral. O processo de preparação para o evento envolveu rodas de conversa, atividades lúdicas, produções artísticas, construção coletiva da decoração e ensaios das apresentações. Todo o percurso foi pautado na metodologia do SCFV, valorizando a convivência, a escuta qualificada, a participação, o protagonismo e o reconhecimento das potencialidades dos participantes, por meio de experiências coletivas, dialógicas e significativas. As brincadeiras tradicionais das festas juninas foram ressignificadas e adaptadas à temática do Estatuto da Criança e do Adolescente, transformando o brincar em uma estratégia de educação para os direitos. Na Casa do ECA, os participantes entravam em pequenos grupos em uma sala onde diversos direitos previstos no Estatuto estavam escondidos. O desafio consistia em encontrar todos os direitos para conseguir sair da sala, ... Continuar Lendo

O Direito de Ter com Quem Contar: LGBTfobia e Proteção Social

A primeira violência da LGBTfobia é, muitas vezes, a perda do pertencimento. Antes mesmo de nos reconhecermos em alguma das identidades dessa sopa de letrinhas LGBTQIA+, há a experiência do desamparo quando percebemos que rompemos as expectativas de gênero, sexualidade e afetividade que nos foram impostas. Esse desamparo está profundamente relacionado ao medo da rejeição familiar e comunitária. Afinal, é nesses espaços que construímos nossos primeiros vínculos, aprendemos quem somos e buscamos reconhecimento. Quando percebemos que nossa existência pode frustrar expectativas ou desafiar normas socialmente estabelecidas, passamos a conviver com a possibilidade de perder justamente aqueles espaços que deveriam nos oferecer proteção e cuidado. A rejeição pode se manifestar de forma explícita: pela negação de nossas identidades e desejos, pelas violências que tentam nos “consertar” ou pela ruptura de vínculos que nos expulsam de nossas casas, de nossas comunidades e de nossos espaços de pertencimento. Mas, mesmo quando essa violência não se concretiza, sua possibilidade permanece como um assombro. Ela se alimenta de comentários, piadas e discriminações tão naturalizadas que muitas vezes passam despercebidas. É essa ameaça constante que nos ensina a esconder quem somos, confinando-nos em armários construídos sob a vigilância permanente de nossos corpos, jeitos, desejos e afetos. ... Continuar Lendo

Pensando a proteção social para pessoas com deficiência

(notas da palestra de @Yheda Gaioli no Seminário “Novos tempos, outros olhares na prática socioassistencial das Apaes do Espírito Santo” promovido pela Federação das Apaes do Espírito Santo em maio/2026) Ao longo da história, as pessoas com deficiência foram frequentemente afastadas da convivência comunitária e tiveram suas possibilidades de participação limitadas por barreiras físicas, culturais e relacionais. Ainda hoje, muitas decisões sobre suas vidas são tomadas sem sua participação efetiva. Em nome do cuidado, corre-se o risco de reforçar práticas de tutela que restringem a autonomia e o direito à escolha. Construir proteção social exige justamente o contrário: ampliar oportunidades de participação, fortalecer vínculos, garantir acesso à cidade e reconhecer as pessoas com deficiência como sujeitos de direitos. Por isso, proteger não significa apenas garantir condições materiais de sobrevivência. Significa também criar condições para que todas as pessoas possam viver com dignidade, participar da vida coletiva e ter sua humanidade reconhecida. Acolhida, convivência e autonomia como resultados da proteção no SUAS Muitas vezes, associamos desigualdade apenas à renda. No entanto, ela também está presente na forma como as pessoas são tratadas, nos espaços que podem ocupar e nas oportunidades que têm de participar da vida social. A vivência da desigualdade ... Continuar Lendo

Adelaide Joia: “Nenhuma estratégia de enfrentamento à violência será efetiva sem escuta, acolhimento e trabalho em rede”

Educadora, cientista social e pesquisadora da área da educação, Adelaide Joia atua há décadas na formação de profissionais e na gestão de políticas públicas voltadas à infância. Em conversa com a Vira e Mexe, ela refletiu sobre os desafios enfrentados pelas escolas diante do bullying, o papel da rede de proteção na prevenção das violências e a importância de fortalecer a escuta de crianças, adolescentes e famílias. Adelaide é colaboradora da Vira e Mexe e foi palestrante convidada no seminário para a rede de proteção à infância e adolescência de São Gotardo (MG), que reuniu profissionais da educação, assistência social, saúde e integrantes do Sistema de Garantia de Direitos para discutir estratégias de enfrentamento às violências que atingem crianças e adolescentes. A Vira e Mexe tem realizado apoio para o planejamento das ações do SUAS no município.  Ao longo da conversa, Adelaide argumenta que o bullying não pode ser compreendido apenas como um problema escolar. Para ela, trata-se de uma expressão de desigualdades e violências mais amplas, que atravessam as relações sociais e exigem respostas articuladas entre diferentes políticas públicas. Vira e Mexe: Durante a atividade realizada em São Gotardo, por que o bullying apareceu como uma preocupação central para ... Continuar Lendo

Proteger é garantir direitos: o papel estratégico do SUAS no Maio Laranja

Neste mês, as campanhas do Maio Laranja mobilizam a sociedade no enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes. Nos debates de que temos participado, temos insistido em uma reflexão urgente: ainda tratamos essa violência como algo excepcional, episódico e distante da realidade social brasileira. No entanto, ela atravessa de forma silenciosa e cotidiana a vida de muitas crianças, adolescentes, mulheres e famílias. Enfrentar essa realidade exige mais do que campanhas pontuais. Exige uma gestão pública comprometida com a construção de respostas contínuas, éticas e qualificadas no cotidiano do SUAS. Neste debate, temos destacado três questões centrais. A primeira é a necessidade de desmistificar o tema. A violência sexual contra crianças e adolescentes ainda é cercada por tabus, silêncios e subnotificação. Muitas vezes, permanece invisível até mesmo dentro dos serviços. Romper com essa lógica é fundamental para que a proteção aconteça de forma efetiva e para que as vítimas encontrem espaços seguros de escuta e acolhimento. A segunda questão diz respeito à responsabilidade dos serviços e das instituições. Muitas intervenções realizadas em nome da proteção acabam produzindo ainda mais sofrimento, rupturas e violências. O encaminhamento para o acolhimento institucional como resposta automática, desconsiderando vínculos afetivos, trajetórias e relações comunitárias, não ... Continuar Lendo

Da escuta à mudança: o novo modelo de apoio técnico em Minas Gerais

Como aprimorar o apoio da gestão estadual de Assistência Social aos municípios? Esse foi o principal desafio que orientou a assessoria estratégica realizada pela Vira e Mexe junto à Subsecretaria de Assistência Social (Subas), vinculada à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese-MG). A gestão estadual tinha um propósito claro: transformar a forma como o Estado apoia os 853 municípios mineiros na implementação do SUAS. O trabalho foi desenvolvido entre o segundo semestre de 2025 e abril de 2026 e teve um ponto de partida tão honesto quanto corajoso. Mesmo sem dados sistematizados, havia o reconhecimento de que o apoio técnico oferecido pelo Estado não vinha produzindo os resultados esperados. A disposição da equipe em nomear o problema com transparência foi fundamental para impulsionar o processo de mudança e abrir caminho para avanços concretos. Ao longo de seis meses, cerca de 36 servidores da Subsecretaria de Assistência Social e das Diretorias Regionais participaram de um processo metodológico estruturado, participativo e colaborativo. Nesse percurso, a equipe mergulhou na análise do problema, formulou hipóteses causais e identificou cinco nós críticos que ajudavam a explicar por que o apoio técnico não alcançava os efeitos desejados nos territórios. Como resultado desse ... Continuar Lendo

Os serviços de proteção social básica e especial podem aprender juntos?

“Quando saí da cidade CREAS, peguei o ônibus na rodoviária da SECRETARIA com destino à cidade APRENDIZAGEM. Passei por vários pontos de parada. A primeira delas foi o distrito das 7 DESPROTEÇÕES. Fiquei lá por um tempo, até sentir que estava no ‘ABANDONO’. Então segui para a vila das DINÂMICAS. Que lugar lindo e alegre! Mas, como a alegria dura pouco, cheguei à metrópole das ATIVIDADES EM GRUPO e me perdi. Foi quando finalizei minha viagem na companhia de colegas que não fazem parte do meu cotidiano.” Essa narrativa foi feita por Jair, que é trabalhador do Serviço de Abordagem Social de São Gotardo, em Minas Gerais. Ele é um dos participantes do processo de Educação Permanente realizado pela Vira e Mexe entre outubro de 2025 e abril de 2026, junto às equipes dos serviços socioassistenciais do município mineiro. A escuta da narrativa de Jair, no encerramento do percurso formativo, nos fez perceber que ela traduzia muito mais do que uma experiência individual. Falava de um deslocamento coletivo. Da trajetória de trabalhadoras e trabalhadores que, ao longo dos encontros, puderam revisitar o cotidiano, reconhecer limites institucionais e, ao mesmo tempo, construir novas possibilidades de atuação conjunta. O “distrito das 7 ... Continuar Lendo

Convivência para produzir democracia todo dia

Quando trabalhamos para fortalecer políticas públicas, é fundamental compreender que a democracia não se limita a um regime político. Democracia é, antes de tudo, um modo de vida, baseado no reconhecimento e na valorização da diversidade de conhecimentos, histórias, crenças, culturas e de tantas outras dimensões que compõem a nossa humanidade. Essa compreensão sustenta o direito à participação inscrito na Constituição de 1988, que orienta as políticas sociais, entre elas a Assistência Social. Para a Vira e Mexe, participação é, ao mesmo tempo, método e resultado: é caminho e também destino. Explico. Nossa metodologia de educação permanente busca apoiar as equipes dos serviços do SUAS a alcançar os resultados esperados — as seguranças de convivência e de autonomia. E como avançar nesse sentido? Experimentando outras formas de convívio e utilizando informações para ampliar nossas possibilidades de escolha. Adotamos metodologias participativas para construir espaços de confiança e horizontalidade. Assim, criamos condições para que as pessoas, ao se sentirem mais seguras, possam compartilhar seus saberes, aprender umas com as outras e fazer escolhas mais qualificadas para si e para os coletivos dos quais fazem parte. A diversidade de opiniões, trajetórias e conhecimentos é uma riqueza ainda pouco explorada, tanto nos processos educativos ... Continuar Lendo

O direito à convivência se vive no território

O principal diferencial da abordagem da Vira e Mexe na capacitação voltada à segurança de convivência no SUAS está na defesa de que o planejamento e a definição de estratégias devem partir de uma leitura qualificada da realidade. Essa leitura se fundamenta na identificação das desproteções relacionais, realizada por meio da escuta atenta das experiências dos usuários. É essencial que as equipes dos serviços e da gestão conheçam profundamente as desproteções vividas pela população atendida. Somente a partir desse entendimento é possível planejar ações efetivas para seu enfrentamento. Nessa perspectiva, o valor da metodologia não está no tipo de atividade desenvolvida, mas na sua adequação às desproteções identificadas. A formação, nesse sentido, deve estar alinhada aos desafios específicos de cada território e ao enfrentamento das desigualdades vividas pelos cidadãos. Esse é um elemento fundamental para a definição do trabalho com as equipes. A concepção defendida por nós é a de serviços de convivência como espaços abertos, plurais e territorialmente referenciados, que acolhem e integram a diversidade presente na comunidade. Assim como cada território é singular, as capacitações também devem ser construídas de forma contextualizada, evitando modelos padronizados. ... Continuar Lendo

Convivência, autonomia e participação social

Desde 2013, a Vira e Mexe vem apoiando equipes no desenvolvimento de metodologias voltadas a alcançar os resultados esperados dos serviços públicos da Assistência Social. Um dos desafios recorrentes enfrentados pelos municípios tem sido frequentemente nomeado como “falta de adesão” dos usuários às atividades propostas. Ao aprofundarmos essa reflexão, percebemos que essa percepção, muitas vezes, está relacionada a decisões cotidianas que são tomadas sobre e para as pessoas – e não com as pessoas. Quando as decisões se concentram exclusivamente nas equipes, reforça-se uma relação hierárquica que contraria a concepção de convivência como uma experiência baseada na horizontalidade, na diversidade e na construção progressiva da autonomia. Nesse sentido, a abordagem da Vira e Mexe se diferencia ao construir, junto às equipes municipais, metodologias participativas que atravessam todo o processo – do planejamento à avaliação das atividades cotidianas. São metodologias que reconhecem a capacidade dos usuários de influenciar e construir, de forma ativa, o cotidiano dos serviços. Ao contrário de planejamentos estruturados em percursos pré-definidos — como uma espécie de “grade curricular” ou “sequência temática” -, a metodologia da Vira e Mexe coloca em prática a Concepção de Convivência e Fortalecimento de Vínculos do SUAS (MDS, 2013), ao afirmar que convivência ... Continuar Lendo