Proteger é garantir direitos: o papel estratégico do SUAS no Maio Laranja

Neste mês, as campanhas do Maio Laranja mobilizam a sociedade no enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes. Nos debates de que temos participado, temos insistido em uma reflexão urgente: ainda tratamos essa violência como algo excepcional, episódico e distante da realidade social brasileira. No entanto, ela atravessa de forma silenciosa e cotidiana a vida de muitas crianças, adolescentes, mulheres e famílias. Enfrentar essa realidade exige mais do que campanhas pontuais. Exige uma gestão pública comprometida com a construção de respostas contínuas, éticas e qualificadas no cotidiano do SUAS. Neste debate, temos destacado três questões centrais. A primeira é a necessidade de desmistificar o tema. A violência sexual contra crianças e adolescentes ainda é cercada por tabus, silêncios e subnotificação. Muitas vezes, permanece invisível até mesmo dentro dos serviços. Romper com essa lógica é fundamental para que a proteção aconteça de forma efetiva e para que as vítimas encontrem espaços seguros de escuta e acolhimento. A segunda questão diz respeito à responsabilidade dos serviços e das instituições. Muitas intervenções realizadas em nome da proteção acabam produzindo ainda mais sofrimento, rupturas e violências. O encaminhamento para o acolhimento institucional como resposta automática, desconsiderando vínculos afetivos, trajetórias e relações comunitárias, não ... Continuar Lendo

Da escuta à mudança: o novo modelo de apoio técnico em Minas Gerais

Como aprimorar o apoio da gestão estadual de Assistência Social aos municípios? Esse foi o principal desafio que orientou a assessoria estratégica realizada pela Vira e Mexe junto à Subsecretaria de Assistência Social (Subas), vinculada à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese-MG). A gestão estadual tinha um propósito claro: transformar a forma como o Estado apoia os 853 municípios mineiros na implementação do SUAS. O trabalho foi desenvolvido entre o segundo semestre de 2025 e abril de 2026 e teve um ponto de partida tão honesto quanto corajoso. Mesmo sem dados sistematizados, havia o reconhecimento de que o apoio técnico oferecido pelo Estado não vinha produzindo os resultados esperados. A disposição da equipe em nomear o problema com transparência foi fundamental para impulsionar o processo de mudança e abrir caminho para avanços concretos. Ao longo de seis meses, cerca de 36 servidores da Subsecretaria de Assistência Social e das Diretorias Regionais participaram de um processo metodológico estruturado, participativo e colaborativo. Nesse percurso, a equipe mergulhou na análise do problema, formulou hipóteses causais e identificou cinco nós críticos que ajudavam a explicar por que o apoio técnico não alcançava os efeitos desejados nos territórios. Como resultado desse ... Continuar Lendo

Os serviços de proteção social básica e especial podem aprender juntos?

“Quando saí da cidade CREAS, peguei o ônibus na rodoviária da SECRETARIA com destino à cidade APRENDIZAGEM. Passei por vários pontos de parada. A primeira delas foi o distrito das 7 DESPROTEÇÕES. Fiquei lá por um tempo, até sentir que estava no ‘ABANDONO’. Então segui para a vila das DINÂMICAS. Que lugar lindo e alegre! Mas, como a alegria dura pouco, cheguei à metrópole das ATIVIDADES EM GRUPO e me perdi. Foi quando finalizei minha viagem na companhia de colegas que não fazem parte do meu cotidiano.” Essa narrativa foi feita por Jair, que é trabalhador do Serviço de Abordagem Social de São Gotardo, em Minas Gerais. Ele é um dos participantes do processo de Educação Permanente realizado pela Vira e Mexe entre outubro de 2025 e abril de 2026, junto às equipes dos serviços socioassistenciais do município mineiro. A escuta da narrativa de Jair, no encerramento do percurso formativo, nos fez perceber que ela traduzia muito mais do que uma experiência individual. Falava de um deslocamento coletivo. Da trajetória de trabalhadoras e trabalhadores que, ao longo dos encontros, puderam revisitar o cotidiano, reconhecer limites institucionais e, ao mesmo tempo, construir novas possibilidades de atuação conjunta. O “distrito das 7 ... Continuar Lendo

Convivência para produzir democracia todo dia

Quando trabalhamos para fortalecer políticas públicas, é fundamental compreender que a democracia não se limita a um regime político. Democracia é, antes de tudo, um modo de vida, baseado no reconhecimento e na valorização da diversidade de conhecimentos, histórias, crenças, culturas e de tantas outras dimensões que compõem a nossa humanidade. Essa compreensão sustenta o direito à participação inscrito na Constituição de 1988, que orienta as políticas sociais, entre elas a Assistência Social. Para a Vira e Mexe, participação é, ao mesmo tempo, método e resultado: é caminho e também destino. Explico. Nossa metodologia de educação permanente busca apoiar as equipes dos serviços do SUAS a alcançar os resultados esperados — as seguranças de convivência e de autonomia. E como avançar nesse sentido? Experimentando outras formas de convívio e utilizando informações para ampliar nossas possibilidades de escolha. Adotamos metodologias participativas para construir espaços de confiança e horizontalidade. Assim, criamos condições para que as pessoas, ao se sentirem mais seguras, possam compartilhar seus saberes, aprender umas com as outras e fazer escolhas mais qualificadas para si e para os coletivos dos quais fazem parte. A diversidade de opiniões, trajetórias e conhecimentos é uma riqueza ainda pouco explorada, tanto nos processos educativos ... Continuar Lendo

Convivência, autonomia e participação social

Desde 2013, a Vira e Mexe vem apoiando equipes no desenvolvimento de metodologias voltadas a alcançar os resultados esperados dos serviços públicos da Assistência Social. Um dos desafios recorrentes enfrentados pelos municípios tem sido frequentemente nomeado como “falta de adesão” dos usuários às atividades propostas. Ao aprofundarmos essa reflexão, percebemos que essa percepção, muitas vezes, está relacionada a decisões cotidianas que são tomadas sobre e para as pessoas — e não com as pessoas. Quando as decisões se concentram exclusivamente nas equipes, reforça-se uma relação hierárquica que contraria a concepção de convivência como uma experiência baseada na horizontalidade, na diversidade e na construção progressiva da autonomia. Nesse sentido, a abordagem da Vira e Mexe se diferencia ao construir, junto às equipes municipais, metodologias participativas que atravessam todo o processo — do planejamento à avaliação das atividades cotidianas. São metodologias que reconhecem a capacidade dos usuários de influenciar e construir, de forma ativa, o cotidiano dos serviços. Ao contrário de planejamentos estruturados em percursos pré-definidos — como uma espécie de “grade curricular” ou “sequência temática” —, a metodologia da Vira e Mexe coloca em prática a Concepção de Convivência e Fortalecimento de Vínculos do SUAS (MDS, 2013), ao afirmar que convivência ... Continuar Lendo

O direito à convivência se vive no território

O principal diferencial da abordagem da Vira e Mexe na capacitação voltada à segurança de convivência no SUAS está na defesa de que o planejamento e a definição de estratégias devem partir de uma leitura qualificada da realidade. Essa leitura se fundamenta na identificação das desproteções relacionais, realizada por meio da escuta atenta das experiências dos usuários. É essencial que as equipes dos serviços e da gestão conheçam profundamente as desproteções vividas pela população atendida. Somente a partir desse entendimento é possível planejar ações efetivas para seu enfrentamento. Nessa perspectiva, o valor da metodologia não está no tipo de atividade desenvolvida, mas na sua adequação às desproteções identificadas. A formação, nesse sentido, deve estar alinhada aos desafios específicos de cada território e ao enfrentamento das desigualdades vividas pelos cidadãos. Esse é um elemento fundamental para a definição do trabalho com as equipes. A concepção defendida por nós é a de serviços de convivência como espaços abertos, plurais e territorialmente referenciados, que acolhem e integram a diversidade presente na comunidade. Assim como cada território é singular, as capacitações também devem ser construídas de forma contextualizada, evitando modelos padronizados. ... Continuar Lendo

Convivência, autonomia e participação social

Desde 2013, a Vira e Mexe vem apoiando equipes no desenvolvimento de metodologias voltadas a alcançar os resultados esperados dos serviços públicos da Assistência Social. Um dos desafios recorrentes enfrentados pelos municípios tem sido frequentemente nomeado como “falta de adesão” dos usuários às atividades propostas. Ao aprofundarmos essa reflexão, percebemos que essa percepção, muitas vezes, está relacionada a decisões cotidianas que são tomadas sobre e para as pessoas – e não com as pessoas. Quando as decisões se concentram exclusivamente nas equipes, reforça-se uma relação hierárquica que contraria a concepção de convivência como uma experiência baseada na horizontalidade, na diversidade e na construção progressiva da autonomia. Nesse sentido, a abordagem da Vira e Mexe se diferencia ao construir, junto às equipes municipais, metodologias participativas que atravessam todo o processo – do planejamento à avaliação das atividades cotidianas. São metodologias que reconhecem a capacidade dos usuários de influenciar e construir, de forma ativa, o cotidiano dos serviços. Ao contrário de planejamentos estruturados em percursos pré-definidos — como uma espécie de “grade curricular” ou “sequência temática” -, a metodologia da Vira e Mexe coloca em prática a Concepção de Convivência e Fortalecimento de Vínculos do SUAS (MDS, 2013), ao afirmar que convivência ... Continuar Lendo

Cultura e arte como dispositivo de enfrentamento das violências e desigualdades sociais

Autor: Chico Cesar é jornalista, mestre em Serviço Social e mobilizador cultural 1. Convivência, Convívio e Proteção Social A convivência, segundo Abigail Torres*, é mais do que o simples estar junto. Ela é um campo de construção de vínculos, reconhecimento e reciprocidade — condição essencial para o exercício da proteção social. É na convivência que se tornam possíveis o cuidado, a solidariedade e o fortalecimento do tecido social. O convívio social implica reconhecer a pessoa na sua integralidade: corpo, emoção, memória e história. No campo da Assistência Social, a convivência é um dos eixos estruturantes das ações com crianças, adolescentes e jovens. Ela permite que o sujeito se reconheça como parte de uma comunidade e, ao mesmo tempo, seja reconhecido em sua singularidade. Quando aproximamos essa perspectiva do campo da cultura e da arte, percebemos que os espaços culturais das periferias cumprem uma função semelhante à da proteção social: eles produzem pertencimento, abrem caminhos para o diálogo e promovem laços afetivos e comunitários. A cultura, quando vivida coletivamente, é também uma forma de proteção e cuidado. 2. Cultura Periférica e Resistência A cultura periférica nasce da falta, mas produz abundância simbólica. Ela se constitui como resposta histórica à exclusão, transformando ... Continuar Lendo

Seguranças no SUAS: o que o Estado deve garantir aos cidadãos

Queremos transformar a Assistência Social e fortalecer sua construção coletiva. Para isso, precisamos entender o resultado que ela deve gerar na vida das pessoas. Essa clareza é o que nos faz superar de vez o estigma de ‘favores’, projetos sem continuidade e ações isoladas que marcam sua história. A legislação que rege essa política foi atualizada em 2011, com a Lei do SUAS (Lei Federal 12.435/2011). Ela estabeleceu resultados específicos e inegociáveis, que chamamos de Seguranças Sociais. O termo “segurança” afirma um direito para todas as pessoas cujas necessidades são reconhecidas em lei.  Ele estabelece uma relação direta: onde há insegurança e desproteção social, o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) deve gerar proteção e segurança. O SUAS deve garantir quatro seguranças essenciais. Elas são o que o cidadão pode e deve esperar dos serviços e benefícios 1. Segurança de Renda e Sobrevivência Vivemos em uma sociedade com profunda desigualdade na distribuição de renda, tanto pelo padrão de cobrança dos impostos, quanto pelas barreiras de acesso ao trabalho digno. Alimentação, moradia e transporte dependem de renda e quando ela é insuficiente ou inexistente, o Estado tem o papel de corrigir essa desigualdade e garantir o mínimo de dignidade. A Assistência ... Continuar Lendo

Histórias da periferia e o sentido do SUAS

O livro Perifobia, de Lilia Guerra, é uma leitura que não pede pressa — pede presença. Em 26 crônicas e contos, a autora abre frestas para que possamos enxergar aquilo que, tantas vezes, é tratado apenas como “paisagem”: os encontros e desencontros, os amores, os sonhos e os desencantos que atravessam a vida na periferia. Junto deles, aparecem também as tragédias anunciadas que se acumulam quando a proteção falha e a dignidade passa a ser negociada no varejo. Há, porém, um fio que me atravessa de modo especial: a forma como essas histórias revelam, com nitidez, que a periferia é também um território de afetos, humor, códigos próprios e solidariedade — e, ao mesmo tempo, um lugar onde a ausência de proteção acaba se tornando rotina. Quando o foco recai sobre as mulheres, esse cenário ganha outra densidade. Mulheres trabalhadoras, em sua maioria mulheres negras, que sustentam a casa, cuidam das crianças, atravessam longos trajetos e enfrentam jornadas intermináveis. Além de tudo isso, ainda precisam lidar com uma violência que nem sempre chega como um grito. Muitas vezes ela aparece como humilhação, desrespeito, “brincadeira”, ameaça velada; como assédio no caminho, no trabalho, no balcão, no ônibus. Uma violência que tenta ... Continuar Lendo