
A primeira violência da LGBTfobia é, muitas vezes, a perda do pertencimento. Antes mesmo de nos reconhecermos em alguma das identidades dessa sopa de letrinhas LGBTQIA+, há a experiência do desamparo quando percebemos que rompemos as expectativas de gênero, sexualidade e afetividade que nos foram impostas.
Esse desamparo está profundamente relacionado ao medo da rejeição familiar e comunitária. Afinal, é nesses espaços que construímos nossos primeiros vínculos, aprendemos quem somos e buscamos reconhecimento. Quando percebemos que nossa existência pode frustrar expectativas ou desafiar normas socialmente estabelecidas, passamos a conviver com a possibilidade de perder justamente aqueles espaços que deveriam nos oferecer proteção e cuidado.
A rejeição pode se manifestar de forma explícita: pela negação de nossas identidades e desejos, pelas violências que tentam nos “consertar” ou pela ruptura de vínculos que nos expulsam de nossas casas, de nossas comunidades e de nossos espaços de pertencimento.
Mas, mesmo quando essa violência não se concretiza, sua possibilidade permanece como um assombro. Ela se alimenta de comentários, piadas e discriminações tão naturalizadas que muitas vezes passam despercebidas. É essa ameaça constante que nos ensina a esconder quem somos, confinando-nos em armários construídos sob a vigilância permanente de nossos corpos, jeitos, desejos e afetos.
Há ainda uma forma mais silenciosa de desamparo: a ausência. A falta de referências positivas em nossas famílias, igrejas, escolas e comunidades; a dificuldade de encontrar pessoas como nós entre aquelas que são celebradas, lembradas ou reconhecidas. Quando nossas histórias não aparecem na memória coletiva e nossos afetos e corpos não encontram lugar nas narrativas compartilhadas, torna-se mais difícil imaginar um futuro possível para pessoas como nós e acreditar que existe um lugar onde possamos pertencer plenamente.
Mas a LGBTfobia não produz desamparo apenas nas pessoas LGBTQIA+. Ela também alcança aqueles que compartilham seus vínculos de afeto e cuidado. Muitas famílias aprendem que acolher um filho ou uma filha LGBTQIA+ pode significar tornar-se alvo de julgamentos da comunidade, da igreja ou da própria família extensa.
Uma mãe pode passar a ser vista como alguém que falhou em sua função de educar. Uma família pode ser tratada como um exemplo negativo. E, diante dessa ameaça, muitas pessoas acabam construindo seus próprios armários: evitam falar sobre seus filhos, escondem suas histórias, silenciam seus afetos e restringem sua participação comunitária para proteger a si mesmas e aqueles que amam.
A LGBTfobia, assim, não rompe apenas a relação entre uma pessoa e sua comunidade. Ela produz rachaduras nas próprias redes de convivência íntima e cuidado, espalhando, de forma contagiosa, o medo, o silêncio e o isolamento.
É por isso que a Segurança de Convívio e Vivência Familiar e Comunitária, reconhecida pela Política de Assistência Social como uma das seguranças que fundamentam o direito à assistência social, produz uma responsabilidade pública de enfrentamento à LGBTfobia. Ao afirmar que cabe ao Estado proteger, fortalecer e reconstruir vínculos familiares e comunitários, a assistência social reconhece que as rupturas desses vínculos não são apenas problemas privados, mas expressões de desigualdades e violências produzidas socialmente.
Nesse sentido, o compromisso da assistência social com a população LGBTQIA+ não se resume a uma postura profissional neutra de não discriminação ou de respeito à diversidade. Trata-se da responsabilidade pública de produzir proteção diante de uma violência que rompe laços familiares, fragiliza pertencimentos, produz isolamento e restringe o acesso das pessoas às suas redes de apoio e cuidado.
A LGBTfobia é uma das violências estruturais que fragilizam as redes de proteção das quais dependemos ao longo da vida. Ela rompe laços familiares, enfraquece vínculos comunitários, produz expulsões simbólicas e concretas e reduz as possibilidades de apoio e pertencimento.
Se a proteção social pode ser traduzida, de forma simples, como a certeza de ter com quem contar diante das dificuldades da vida, a LGBTfobia opera no sentido oposto. Ela produz rupturas com aqueles com quem poderíamos contar. E é justamente por isso que enfrentá-la constitui uma tarefa permanente da assistência social: produzir segurança de convívio, fortalecer vínculos e ampliar as possibilidades de cuidado, apoio e solidariedade nas famílias e comunidades.
Mas enfrentar a LGBTfobia não significa apenas interromper violências. Significa também criar condições para que pessoas LGBTQIA+ possam construir vínculos, participar da vida comunitária e desenvolver redes de apoio e cuidado ao longo da vida. Porque ninguém vive apenas da ausência de violência. Todos precisamos de pessoas com quem contar, lugares onde sejamos reconhecidos e comunidades nas quais possamos existir sem medo. Precisamos de referências, de afeto, de cuidado, de solidariedade e de pertencimento.
A proteção social não se realiza apenas quando impede uma expulsão, oferece um acolhimento ou garante uma renda. Ela também se realiza quando ajuda a construir comunidades mais acolhedoras, vínculos mais fortes e redes de apoio mais amplas.
Talvez seja esse um dos sentidos mais profundos da luta contra a LGBTfobia para o Sistema Único de Assistência Social: transformar o isolamento em convivência, o desamparo em pertencimento, a violência em segurança, a ruptura em cuidado e garantir que ninguém precise escolher entre ser quem é e ter com quem contar.












