Blog VeM

Pensando a proteção social para pessoas com deficiência

Screenshot

(notas da palestra de @Yheda Gaioli no Seminário “Novos tempos, outros olhares na prática socioassistencial das Apaes do Espírito Santo” promovido pela Federação das Apaes do Espírito Santo em maio/2026)

Ao longo da história, as pessoas com deficiência foram frequentemente afastadas da convivência comunitária e tiveram suas possibilidades de participação limitadas por barreiras físicas, culturais e relacionais.

Ainda hoje, muitas decisões sobre suas vidas são tomadas sem sua participação efetiva. Em nome do cuidado, corre-se o risco de reforçar práticas de tutela que restringem a autonomia e o direito à escolha.

Construir proteção social exige justamente o contrário: ampliar oportunidades de participação, fortalecer vínculos, garantir acesso à cidade e reconhecer as pessoas com deficiência como sujeitos de direitos.

Por isso, proteger não significa apenas garantir condições materiais de sobrevivência. Significa também criar condições para que todas as pessoas possam viver com dignidade, participar da vida coletiva e ter sua humanidade reconhecida.

Acolhida, convivência e autonomia como resultados da proteção no SUAS

Muitas vezes, associamos desigualdade apenas à renda. No entanto, ela também está presente na forma como as pessoas são tratadas, nos espaços que podem ocupar e nas oportunidades que têm de participar da vida social.

A vivência da desigualdade aparece quando determinados grupos são constantemente desacreditados, silenciados ou afastados dos espaços de decisão. Aparece quando uma pessoa é reduzida à sua deficiência, à sua origem, à cor da sua pele ou ao lugar onde mora. Nesse sentido, a proteção social busca enfrentar as relações que produzem exclusão e sofrimento.No SUAS, a proteção social se organiza a partir de três dimensões fundamentais.

A primeira delas é a acolhida. Toda pessoa tem o direito de ser recebida com respeito, sem julgamentos e sem ser responsabilizada individualmente pelas situações que vivencia. Acolher é reconhecer histórias, trajetórias e saberes, criando espaços de escuta e construção conjunta.

A segunda é a convivência. Conviver não significa apenas estar próximo de outras pessoas. Significa construir relações, participar da comunidade, acessar diferentes espaços da cidade e compartilhar experiências com pessoas diversas. Por isso, fortalecer a convivência é enfrentar processos de isolamento e segregação que ainda marcam a trajetória de muitos grupos sociais, especialmente das pessoas com deficiência.

A terceira dimensão é a autonomia. Proteger não é decidir pela vida das pessoas. É criar condições para que elas possam fazer escolhas, expressar seus desejos e participar das decisões que impactam seus cotidianos. A proteção só se concretiza plenamente quando reconhece cada sujeito como protagonista de sua própria história.

Uma responsabilidade coletiva

A produção da proteção social não depende de um único serviço ou de uma única política pública. Ela exige articulação entre assistência social, saúde, educação, cultura, transporte e tantas outras áreas que impactam a vida das pessoas.

Também exige olhar para os territórios, compreender as barreiras existentes e reconhecer que famílias, comunidades e redes de apoio fazem parte dos processos de proteção.

Pensar em novos tempos e outros olhares é assumir que proteger vai muito além do atendimento de necessidades imediatas. É construir condições para que todas as pessoas possam viver, circular, conviver e participar plenamente da sociedade.

Porque proteger não significa retirar alguém da vida coletiva para cuidar dela. Significa garantir que todas as pessoas tenham condições de ocupar seu lugar no mundo com dignidade, autonomia e direitos.

Quando falamos em proteção social, é comum pensar imediatamente em benefícios, auxílios financeiros ou acesso a serviços públicos. Essas ofertas são fundamentais, mas não esgotam o significado da proteção. Afinal, do que as pessoas precisam ser protegidas?

A Assistência Social parte do reconhecimento de que as situações de sofrimento não são individuais. Elas são produzidas por desigualdades que atravessam a vida em sociedade e se manifestam de diferentes formas: na violência, na discriminação, na humilhação cotidiana, no isolamento e na negação de direitos.

plugins premium WordPress