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Adelaide Joia: “Nenhuma estratégia de enfrentamento à violência será efetiva sem escuta, acolhimento e trabalho em rede”

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Educadora, cientista social e pesquisadora da área da educação, Adelaide Joia atua há décadas na formação de profissionais e na gestão de políticas públicas voltadas à infância. Em conversa com a Vira e Mexe, ela refletiu sobre os desafios enfrentados pelas escolas diante do bullying, o papel da rede de proteção na prevenção das violências e a importância de fortalecer a escuta de crianças, adolescentes e famílias.

Adelaide é colaboradora da Vira e Mexe e foi palestrante convidada no seminário para a rede de proteção à infância e adolescência de São Gotardo (MG), que reuniu profissionais da educação, assistência social, saúde e integrantes do Sistema de Garantia de Direitos para discutir estratégias de enfrentamento às violências que atingem crianças e adolescentes. A Vira e Mexe tem realizado apoio para o planejamento das ações do SUAS no município. 

Ao longo da conversa, Adelaide argumenta que o bullying não pode ser compreendido apenas como um problema escolar. Para ela, trata-se de uma expressão de desigualdades e violências mais amplas, que atravessam as relações sociais e exigem respostas articuladas entre diferentes políticas públicas.

Vira e Mexe: Durante a atividade realizada em São Gotardo, por que o bullying apareceu como uma preocupação central para a rede de proteção à infância e adolescência?

Adelaide Joia: A minha percepção foi que existe uma preocupação muito grande com as situações de violência dentro das escolas. O município tem uma rede bastante articulada e muito interessada em fazer a proteção funcionar de fato. O que apareceu nas conversas foi a necessidade de compreender melhor o bullying e construir um fluxo de atendimento para essas situações.

Eu procurei contextualizar que o bullying não é um fenômeno novo. A escola é um dos lugares onde ele mais aparece, mas ele está relacionado a formas históricas de exclusão e de violência. O diferente sempre sofreu algum tipo de discriminação. O que mudou foi que passamos a discutir isso de maneira mais sistemática.

Vira e Mexe: Então o bullying não pode ser entendido como um problema isolado?

Adelaide Joia: Não. Muitas vezes ele está ligado a outras formas de violência. Uma criança que sofre violência, humilhação ou desrespeito em outros espaços também pode reproduzir isso nas relações escolares. São violências que se conectam.

Por isso, eu acho importante pensar a escola dentro da rede de proteção. A escola não resolve tudo sozinha. Ela é um espaço fundamental, mas precisa dialogar com a assistência social, com a saúde e com os demais serviços do território.

Vira e Mexe: Você falou bastante sobre a importância da escuta. Por quê?

Adelaide Joia: Porque nós ainda temos muita dificuldade de escutar. Cada política faz o seu trabalho, cada profissional procura cumprir sua função, mas muitas vezes isso acontece de forma isolada. Falta uma escuta mais profunda entre os próprios serviços e também com as famílias.

Quando uma situação de violência aparece, frequentemente a família é responsabilizada de imediato. Mas o que essa família precisa, muitas vezes, é de acolhimento. Ela precisa ter um espaço seguro para falar das suas dificuldades, para pedir ajuda e para construir soluções junto com os serviços.

Vira e Mexe: Como identificar que uma criança pode estar sofrendo bullying?

Adelaide Joia: Um dos sinais mais evidentes é o isolamento. A criança que antes participava das atividades, brincava, se relacionava com os colegas e, de repente, passa a se retrair, a ficar mais quieta, mais distante.

Também pode acontecer o contrário. Algumas crianças ficam agressivas. Outras começam a faltar na escola ou demonstram não querer mais frequentar aquele espaço. O sofrimento aparece de diferentes formas.

O problema é que nem sempre a criança consegue dizer o que está acontecendo. Por isso eu falo da importância da escuta especializada. Não é apenas ouvir o que ela fala. É conseguir perceber os sinais que ela está apresentando.

Vira e Mexe: E qual deve ser a resposta da escola diante desses sinais?

Adelaide Joia: A primeira coisa é não tratar a situação a partir de julgamentos. Não se trata de chamar a família para dar uma bronca ou para ensinar alguém a ser mãe ou pai. É preciso acolher.

Também é fundamental que existam protocolos e fluxos de atendimento. Quem faz o quê? Quando a escola identifica uma situação, para onde encaminha? Como a assistência social participa? Como a saúde participa? Essas definições ajudam muito a fortalecer a proteção.

Vira e Mexe: Você também demonstrou preocupação com o papel das redes sociais.

Adelaide Joia: Sim, porque as formas de violência mudaram. Hoje elas não ficam restritas ao espaço físico da escola. As crianças continuam interagindo, brigando, se ameaçando e se violentando nos ambientes digitais.

As famílias vivem uma série de dificuldades e muitas vezes não conseguem acompanhar tudo o que acontece nesses espaços. Ao mesmo tempo, nós não podemos imaginar que a responsabilidade seja apenas da escola ou apenas da família.

O desafio é construir uma atuação conjunta. A tecnologia existe e continuará existindo. O que nós não podemos fazer é substituir completamente as relações humanas por ela.

Vira e Mexe: O que você considera mais importante para enfrentar essas situações?

Adelaide Joia: Fortalecer a rede de proteção. Nenhuma política pública consegue responder sozinha a problemas tão complexos. Precisamos construir espaços permanentes de diálogo entre educação, assistência social, saúde e famílias.

Quando a escuta acontece, quando existe acolhimento e quando os serviços trabalham de forma articulada, aumentam as possibilidades de identificar o sofrimento antes que ele se transforme em algo ainda mais grave.

Nenhuma estratégia de enfrentamento à violência será efetiva sem escuta, acolhimento e trabalho em rede.

Quer saber mais? A equipe da Vira e Mexe é especializada na mobilização e implementação de ações articulando a rede de proteção à infância e adolescência e no apoio às iniciativas intersetoriais nos municípios.

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