
É junto dos bão que a gente fica mió (Guimarães Rosa)
Nos últimos dois meses, tive o privilégio de participar de encontros regionais e estaduais promovidos por diferentes instituições, muitos deles voltados às novas gestoras e gestores municipais. Foram espaços plurais de diálogo, nos quais emergiram temas igualmente diversos — e profundamente estratégicos. Destaco, entre eles, a luta permanente por um SUAS antirracista; a centralidade do direito como fundamento para fortalecer a proteção pública; a articulação entre serviços como caminho para ampliar a potência do SUAS; e a convivência democrática e horizontal como método essencial para produzir uma atenção de qualidade.
Mais do que os conteúdos debatidos, o que desejo sublinhar é a alegria imensa que esses encontros produzem. Alegria por reconhecer quem segue na luta conosco; por ampliar repertórios e argumentos; por entrar em contato com práticas potentes que nos inspiram; e, sobretudo, porque esses espaços são atravessados por afeto, reconhecimento e solidariedade. Em uma trincheira tão intensa e repleta de desafios quanto a defesa do lugar dos serviços socioassistenciais na proteção pública — e da qualidade necessária dessa atenção para materializar o direito à vida com dignidade —, esses encontros nos sustentam.
Foi nesse contexto que pude abraçar e trocar algumas palavras com o querido Renan Inquérito, artista múltiplo, poeta, músico e educador social, que partilhou comigo sua produção “Poesia para encher a laje’. Esse encontro reafirmou uma convicção profunda: há, no SUAS, uma enorme capacidade de criação e inovação presente nas práticas cotidianas de educadoras e educadores sociais. Trata-se de um saber estratégico para qualificar a política pública de Assistência Social, mas que muitas vezes é desvalorizado por uma lógica elitista e burocrática de hierarquização do conhecimento — como se apenas determinadas profissões tivessem legitimidade para interpretar a realidade.
Da mesma forma, ao participar de uma roda com a escritora Lilia Guerra e ouvir trechos de sua obra “Perifobia”, fui simbolicamente recolocada na periferia paulistana de onde venho. Uma experiência que ressignifica, mais uma vez, meu posicionamento na defesa dos direitos, ao me reconectar com minha própria trajetória como usuária das políticas públicas.
Foram muitos os encontros com militantes e trabalhadoras do SUAS de cidades paulistas, mineiras, capixabas, paranaenses, pernambucanas e paraibanas. E também com pesquisadoras e pesquisadores da luta antirracista, como Diego dos Santos Reis Jadiele Berto e Albeno Silva — querido articulador estadual e gestor da proteção especial na Paraíba, cuja vitalidade e assertividade vêm fortalecendo práticas antirracistas potentes e sustentáveis.
Esses são apenas alguns exemplos, pois seria impossível traduzir em poucas linhas a riqueza das experiências vividas nesse período, com aberturas de novos campos de conhecimento e diálogos férteis que despertaram uma inquietação constante em nós, da Vira e Mexe, de ampliar repertórios e inovar estratégias.
É essa busca que temos realizado — e que desejamos intensificar. Uma busca alimentada por encontros que nos tornam ainda mais desejosas de diálogo, em um ciclo permanente de produção de conhecimento, transformação das práticas e fortalecimento dos afetos e das conexões necessárias para seguir na luta.
Abigail Torres, sócia diretora da Vira e Mexe











