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Como construir ferramentas de planejamento coletivo considerando a diversidade do território?

Foi com a pergunta do título que começamos o processo de Educação Permanente com as equipes da proteção social Básica e Especial em Botucatu, município do interior de São Paulo.

A pergunta pode parecer simples, mas ela desloca o planejamento de um lugar bastante conhecido: o de responder às demandas mais urgentes que chegam aos serviços, muitas vezes marcadas pela quantidade ou por aquilo que se apresenta como mais visível no cotidiano das equipes.

Para a Vira e Mexe, dar sentido às ações é uma condição incontornável para construir um trabalho coerente com a vida das pessoas nos territórios. Por isso, antes de discutir como planejar, precisávamos compreender por que planejar conjuntamente.

Planejamento começa com a leitura da realidade

Um dos desafios da Assistência Social é não deixar que o cotidiano dos serviços determine, sozinho, as prioridades do trabalho. Quando isso acontece, há o risco de o planejamento se tornar apenas uma organização das demandas já conhecidas, sem produzir uma leitura mais ampla das situações vividas pelas pessoas e famílias nos territórios.

Nesse sentido, começamos construindo uma leitura compartilhada do território e das desproteções As equipes analisaram diferentes situações de desproteção presentes nos territórios do município e, a partir dessa análise, priorizaram uma delas para desenvolver um trabalho conjunto entre a proteção básica e a especial.

Priorizar, nesse contexto, não significa escolher quem merece atenção. Significa reconhecer quais desproteções apresentam maior incidência no território, quais impactos produzem na vida das pessoas e quais aspectos dessas situações ainda precisam ser melhor compreendidos para orientar a ação profissional.

Uma das profissionais sintetizou esse aprendizado de maneira muito precisa:

“Planejar coletivamente exige um diagnóstico do território ou das demandas mais presentes, considerando sua incidência.”

A afirmação revela uma questão central: não existe planejamento consistente sem produção coletiva de conhecimento sobre a realidade.

Há uma expectativa, às vezes presente nos processos de trabalho, de que o planejamento coletivo produza uma resposta única, consensual e definitiva.

Mas não é disso que estamos falando.

Planejar coletivamente significa criar condições para que diferentes equipes possam pensar juntas sobre aquilo que sabem, sobre aquilo que fazem e, principalmente, sobre aquilo que ainda precisam conhecer.

A proteção básica e a proteção especial possuem responsabilidades, estratégias e ofertas distintas. Justamente por isso, colocá-las em diálogo pode ampliar a capacidade de compreender situações complexas que não cabem nos limites de um único serviço ou nível de proteção.

O planejamento compartilhado, portanto, não apaga diferenças. Ele cria conexões entre elas.

E essa talvez seja uma das contribuições mais importantes da Educação Permanente no SUAS: produzir espaços nos quais as equipes possam interromper, ainda que temporariamente, a lógica automática do cotidiano para olhar com atenção renovada para aquilo que fazem.

Ao longo do tempo, determinadas formas de fazer passam a parecer naturais: “sempre foi assim”, “esse é o fluxo”, “essa demanda é da proteção especial”, “essa situação é do CRAS”, “isso não cabe a nós”.

O problema é que, quando essas certezas deixam de ser interrogadas, podem limitar a capacidade das equipes de reconhecer novas dimensões das situações vividas pelas pessoas.

Por isso, insistir no mesmo movimento nem sempre produz deslocamento.

A Educação Permanente pode cumprir justamente esse papel: criar condições para que as equipes desenvolvam um olhar mais atento e crítico sobre o próprio trabalho, questionem aquilo que parecia dado e experimentem outras possibilidades de atuação.

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