
O livro Perifobia, de Lilia Guerra, é uma leitura que não pede pressa — pede presença. Em 26 crônicas e contos, a autora abre frestas para que possamos enxergar aquilo que, tantas vezes, é tratado apenas como “paisagem”: os encontros e desencontros, os amores, os sonhos e os desencantos que atravessam a vida na periferia. Junto deles, aparecem também as tragédias anunciadas que se acumulam quando a proteção falha e a dignidade passa a ser negociada no varejo.
Há, porém, um fio que me atravessa de modo especial: a forma como essas histórias revelam, com nitidez, que a periferia é também um território de afetos, humor, códigos próprios e solidariedade — e, ao mesmo tempo, um lugar onde a ausência de proteção acaba se tornando rotina.
Quando o foco recai sobre as mulheres, esse cenário ganha outra densidade. Mulheres trabalhadoras, em sua maioria mulheres negras, que sustentam a casa, cuidam das crianças, atravessam longos trajetos e enfrentam jornadas intermináveis. Além de tudo isso, ainda precisam lidar com uma violência que nem sempre chega como um grito. Muitas vezes ela aparece como humilhação, desrespeito, “brincadeira”, ameaça velada; como assédio no caminho, no trabalho, no balcão, no ônibus. Uma violência que tenta reduzir uma vida inteira a um corpo que serve, que aguenta, que “dá conta”.
Entre tantas passagens, uma frase permanece ecoando como aviso e ironia — e também como uma espécie de sabedoria aprendida cedo demais: “toda promessa tem prazo de validade (do manual prático de sobrevivência para crianças que lidam com cafajestes)”. É literatura, mas também é diagnóstico social. Quando a promessa expira, o que resta para muitas meninas e mulheres é improvisar proteção onde deveria existir direito.
É impossível ler Perifobia sem fazer a ponte com o Sistema Único de Assistência Social. Afinal, o SUAS existe justamente para que a vida não dependa da sorte, da caridade ou da capacidade individual de “aguentar”. Existe para oferecer proteção social com dignidade, fortalecer vínculos, enfrentar violências, garantir acesso, acolher sem julgamento e construir caminhos de autonomia — especialmente para quem vive na borda das políticas e no centro das urgências.
Na Vira e Mexe, acreditamos que políticas públicas também se alimentam de narrativas. Elas nos lembram que, por trás de cada “demanda”, há sempre uma história. E que, para muitas mulheres negras da periferia, o mínimo ainda é conquista diária. Algumas leituras nos ajudam justamente a reafirmar o essencial: proteção não é favor — é direito.













