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A esperança vira prática: o que 2025 nos ensinou sobre transformar o SUAS por dentro

O escritor Ariano Suassuna dizia que não era otimista nem pessimista: “sou um realista esperançoso”. Ao revisitar as atividades de 2025 para planejar 2026, percebemos que essa ideia acompanhou cada etapa do trabalho desenvolvido com as equipes ao longo do ano.

Em diferentes processos formativos, escutamos devolutivas que sintetizam o impacto vivido: “Saio daqui com um novo olhar, mais esperançosa sobre o meu trabalho.” Comentários simples, mas profundamente reveladores de uma das principais realizações da Vira e Mexe em 2025: profissionais do SUAS reconhecendo que podem olhar e atuar na realidade com mais esperança — não porque ela tenha se tornado menos complexa, mas porque passaram a se sentir mais seguros, mais preparados e com mais repertório para agir.

As razões dessa transformação são múltiplas. Ao longo do ano, as equipes compreenderam com mais profundidade a finalidade do trabalho social, a função da política pública, os direitos das pessoas e as dinâmicas dos territórios. Aproximaram-se mais da população e foram tocadas pela força cotidiana de quem luta por dignidade. Esse conjunto de experiências ativou um movimento de renovação profissional que aparece nos relatos: “Agora tenho mais argumentos para articular o planejamento com toda a equipe, mesmo diante das urgências do dia a dia.”

É isso que a educação permanente produz: ela converte esperança individual em capacidade profissional e fortalece a ação coletiva ao estimular que as equipes dialoguem sobre métodos, conceitos e práticas.

Profissionalizar o trabalho social é “um potente antídoto para enfrentar a herança de ausência de direitos dos chamados ‘carentes’ ainda presente na Assistência Social” como afirmam Torres e Ferreira*.

Ser uma “realista esperançosa” no SUAS significa reconhecer que nenhuma equipe trabalha sozinha. Como disse outra participante: “Para mim e para a equipe, a educação permanente mudou a nossa forma de atuar.” Esses relatos mostram que as ações de 2025 não apenas qualificaram práticas, mas ampliaram a capacidade de imaginar o futuro do SUAS — um futuro sustentado por equipes fortalecidas, críticas e criativas.

A educação permanente cria condições para que trabalhadoras e trabalhadores se reconheçam como sujeitos da ação, reafirmando que o trabalho social é espaço de produção de vida e ampliação do acesso a direitos. Isso rompe com a noção histórica de que usuários são “carentes” e recoloca o direito no centro da prática cotidiana.

Quando a profissionalização orientada pelo direito se torna a bússola, a esperança deixa de ser apenas afeto individual e se torna prática coletiva. Uma prática que reorganiza prioridades, dá sentido ao cotidiano e qualifica escolhas.

É por isso que a reflexão de Suassuna dialoga tanto com as realizações da Vira e Mexe ao longo do ano. As ações desenvolvidas em 2025 procuraram revelar caminhos para exercitar uma esperança que não nega a realidade — mas nasce exatamente do encontro com ela.

E é nisso que sigo apostando: em trabalhadoras e trabalhadores que constroem, diariamente, um fazer que não nasce do “otimismo da vontade” nem se deixa aprisionar pelo “pessimismo da razão”, como disse o filósofo**, mas que emerge da convicção de que é possível — e necessário — transformar o mundo real.

*TORRES, Abigail e FERREIRA, Stela. Trabalho profissional: responsabilidade de proteção nos serviços socioassistenciais. O Social em Questão – Ano XXII – nº 45 set a dez/2019.

** Expressão do romancista francês Romain Rolland popularizada pelo filósofo Antonio Gramsci.

Por Yheda Gaioli

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