SUAS na superação das desproteções sociais

Abigail Torres Fui convidada para falar no painel principal do XXII Encontro Regional Congemas – Sudeste, em Atibaia (SP), que teve a participação de mais de 600 representantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. O tema do encontro foi “O futuro da Assistência Social no Brasil: compromissos dos governos na superação da fome e das desproteções sociais”. Vislumbrar uma perspectiva de futuro não pode estar associada à uma ação emergencial e sim à uma escolha de direção sobre qual será o projeto do SUAS para os próximos anos. Neste período de pandemia a distribuição de cestas básicas e de auxílio alimentação absorveu o trabalho das equipes da proteção básica, mas essa ação não responde ao direito à segurança alimentar, é uma ação paliativa, um quebra-galho emergencial. A questão é: Vamos continuar fazendo um quebra-galho ao priorizar a entrega de cestas básicas ou vamos assumir o que é nossa responsabilidade?  Assim, falar do futuro da Assistência Social atrelado à superação da fome exige um sério debate. Somente entregar cesta básica não é suficiente. A intervenção que o SUAS está fazendo no momento não pode ser entendida como combate à fome porque isso se faz com políticas ... Continuar Lendo

Benefício eventual é direito

Estamos apoiando as equipes dos municípios para a regulamentação e operacionalização dos benefícios eventuais do SUAS. Ao lado de nossa colaboradora Ana Ligia Gomes, especialista neste assunto e com ampla experiência na gestão de benefícios, realizamos a supervisão técnica nos municípios como Bady Bassitt, Andradina e, mais recentemente Salto, todos no interior paulista. Ao escutar as equipes e conselheiros tem sido frequente a seguinte pergunta: como criar critérios para a concessão do benefício eventual para que ele possa ser acessado, de fato, como direito da Assistência Social?   Para construir as respostas possíveis junto com as equipes entendemos que é necessário ter como ponto de partida duas ideias fundamentais: direitos só são assegurados quanto há critérios claros e compreensíveis ao cidadão e, por isso, podem ser reclamados quando são negados; sem essa condição, a entrega de qualquer bem ou recurso pode ser entendida como favor ou privilégio. o acesso a um direito sempre supõe um sujeito coletivo, ou seja, embora ele possa ser requisitado por um indivíduo, ele sempre vai corresponder a um conjunto de cidadãos que vivenciam uma dimensão da desigualdade social visto que já está reconhecida em lei. Portanto, a pergunta que precisa ser feita é: quais critérios ... Continuar Lendo
Intersetorialidade e corresponsabilização

Intersetorialidade e corresponsabilidade na gestão pública

Todas as políticas sociais têm que prover atenções ao cidadão. Ocorre que face à desigualdade social instalada entre os brasileiros, esta provisão deve ocorrer a partir das condições concretas diferenciadas e desiguais dos cidadãos e não do que seria suposto como adequado a que ele devesse dispor. Cobrar das políticas sociais a atenção a todos os cidadãos significa que cada uma delas inclua as condições reais de vida dos brasileiros independente da precariedade em que estejam vivendo. (SPOSATI, 2013:34 Para responder à complexidade da desigualdade social brasileira, sobretudo neste pós pandemia, “cada um fazer sua parte” não é suficiente ante à desigualdade estrutural que se agravou no tempo em que vivemos. A ação articulada entre diferentes políticas sociais é muito desafiadora. Enfrentar esse desafio  é urgente e necessário porque se, de um lado, cada política social deve alcançar o máximo o seu potencial, de outro, do ponto de vista da complexidade das situações vividas pelas pessoas, não será suficiente. Todas as políticas sociais são, desse ponto de vista, incompletas e dependem umas das outras. O reconhecimento da necessidade do fortalecimento de ações intersetoriais mais efetivas e capazes de assegurar proteção social aos adolescentes e jovens, geralmente, se apresenta como saída ... Continuar Lendo

Planejamento do SUAS em Vitória (ES)

Em um encontro de dois dias com a participação de cerca de 40 trabalhadoras/es das diferentes gerências que compõem a estrutura da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) de Vitória (ES), a Vira e Mexe apoiou a elaboração do planejamento da Semas para a implementação do SUAS no ano de 2022. Com os objetivos de construir alinhamento de diretrizes estratégicas da Semas, priorizar ações e reconhecer as responsabilidades compartilhadas pelas áreas, a oficina realizada em fevereiro foi uma continuidade das ações de diagnóstico socioterritorial e avaliação elaborados pela equipe no ano passado. Assim, o desenho do encontro foi construído a partir dos relatórios do diagnóstico e avaliação, dos dados do Censo SUAS de Vitória, das deliberações da 12ª Conferência Municipal de Assistência Social, além da relação da rede de serviços. Um diferencial desse processo foi o estudo coletivo da Concepção de Convivência e Fortalecimento de Vínculos do SUAS e a criação de estratégias de escuta para ouvir das pessoas que usam os serviços da Assistência Social, quais foram os impactos da pandemia nos seus vínculos e nas suas redes de apoio tanto afetivo e familiar, como também nos serviços públicos. Continuidade De acordo com Abigail Torres, sócia diretora da Vira ... Continuar Lendo

As mulheres na política do SUAS

[vc_row][vc_column][vc_column_text] No mês de março, empresas, indivíduos, organizações sociais e instituições públicas de todos os setores manifestam de diversas formas, nas mídias e nas redes sociais, suas homenagens às mulheres, celebrando sua existência e seu papel social . As mulheres são maioria na Assistência Social, seja como trabalhadoras ou como usuárias da política. No entanto, ainda que o SUAS seja predominantemente feminino, pode-se afirmar que as desconstruções [e denúncias] do patriarcado, um dos pilares históricos da nossa sociedade, assim como as pautas femininas e feministas ainda não são as principais diretrizes dessa política. Haja vista que ainda recaem sobre as mulheres as obrigações de cuidados e cobranças no sentido de responsabilizá-las pelo que é função do Estado. O conceito de Familismo, disseminado pela produção de Marta Campos e Regina Mioto oferta um importante alerta para a política de Assistência Social, que corre o risco de isentar o Estado de seu dever de garantir os direitos de indivíduos e grupos, transferindo essa responsabilidade para os familiares e, particularmente, para as mulheres. As mulheres desde sempre são vistas como as cuidadoras – dos mais velhos, crianças, jovens, e adoecidos da família. E nestes tempos atuais, o peso dessa carga de cuidado sobre ... Continuar Lendo

Avaliação do projeto Crescer Sem Violência

A Vira e Mexe está apoiando a Fundação Roberto Marinho na avaliação da formação do projeto Crescer Sem Violência, em sua edição no município de Vitória da Conquista, na Bahia. O projeto Crescer Sem Violência é realizado pelo Canal Futura em parceria com o Unicef e a Childhood Brasil. Com abrangência em todo o país, o projeto tem como objetivo disseminar informações e metodologias para o enfrentamento das múltiplas formas de violência contra as crianças e os adolescentes. Realiza ações de capacitação, presenciais e a distância, para educadores e profissionais da rede de proteção à criança e ao adolescente, além de campanhas e distribuição de material pedagógico, formando uma ampla rede de mobilização.  A parceria entre a Childhood Brasil e a Fundação Roberto Marinho agrega diferentes saberes para qualificar intervenções nesse campo, pois de um lado, a Childhood tem longa experiência na temática e a Fundação Roberto Marinho uma sólida expertise de formação a partir da metodologia de telecurso, produzindo materiais audiovisuais para apoiar profissionais de organizações sociais, conselho tutelar, vara da Infância, escola, polícia,unidades de saúde, CRAS e CREAS, dentre outros que atuam na Rede de Proteção da crianças e do adolescente e contribuir para que eles identifiquem e ... Continuar Lendo

Supervisão e apoio para organizações sociais no trabalho com famílias

Fortalecer o trabalho das equipes das organizações sociais que atendem as famílias na proteção social básica do SUAS é o objetivo do trabalho que a equipe Vira e Mexe está iniciando na Cidade Ademar, região Sul da cidade de São Paulo. Participarão deste processo trabalhadores/as dos CRAS e equipes de duas organizações sociais que implementam o Serviço de Assistência Social à Família e Proteção Social Básica no Domicílio (SASF), serviço de acompanhamento e monitoramento das famílias encaminhadas pelo CRAS. As duas organizações – Espaço Aberto e GFVJC CRÊSER – têm Termo de Colaboração com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Em São Paulo, o Serviço de Assistência Social à Família e Proteção Social Básica no Domicílio trabalha de forma articulada aos CRAS para que os serviços da proteção básica cumpram objetivos, como “prevenir agravos que possam desencadear rompimento de vínculos familiares e sociais; e identificar, apoiar e acompanhar indivíduos e/ou famílias com idosos e pessoas com deficiência, na perspectiva de prevenir o confinamento e o abrigamento institucional.” A supervisão e apoio, com duração de seis meses, visa apoiar as equipes para o acompanhamento das famílias e grupos sociais valorizando suas experiências e trajetórias. Após rodas de conversa para ... Continuar Lendo

O SUAS em 2022

Um novo ano está começando! Neste 2022, após dois anos de pandemia do coronavírus, comemoramos o alcance da vacina que, graças ao trabalho incansável dos agentes do SUS, chegou para um maior número de pessoas, diminuindo a letalidade do vírus, ao mesmo tempo em que nos preocupamos com o aprofundamento das desigualdades sociais provocado pela emergência sanitária.  O impacto da pandemia nas demandas de proteção social é a grande diretriz da política de Assistência Social em 2022. Após um longo período de distanciamento social e de diminuição das atividades presenciais nos serviços do SUAS, as equipes precisam se reorganizar e repensar os processos de trabalho para apoiar cidadãos e cidadãs. E, junto com eles, enfrentar os impactos da pandemia nas suas redes de proteção, tais como as vivências de luto, maior exposição às situações de violência doméstica e de Estado, aumento do trabalho infantil em decorrência da diminuição de renda das familias e tantas outras experiências e injustiças invisibilizadas. De acordo com censo recente da prefeitura de São Paulo, houve um aumento de 31% da população em situação de rua, registrando neste início de ano, um total de quase 32 mil pessoas na capital paulista. O fechamento das escolas teve ... Continuar Lendo

Convivência e trabalho em grupos no SUAS

A trilha sonora é uma vivência que fazemos em nossos encontros para colocar em prática algumas estratégias que sistematizamos na Concepção de Convivência e Fortalecimento de Vínculos no SUAS. Destacamos essa atividade porque ela tem uma característica essencial para o trabalho em grupo nos serviços do SUAS: os acontecimentos da vida são o próprio conteúdo da atividade. Diferentemente de concepções prescritivas, como palestras, orientações e “aulas de convivência”, a Trilha Sonora cria um ambiente favorável para trocas afetivas, produção coletiva e reconhecimento e valorização de diferentes possibilidades de existir. Ao invés de “temas frios”, que seguem um calendário que nem sempre faz sentido na vida das pessoas, as canções compartilhadas nessa atividade trazem “temas quentes”, como questões raciais, de gênero, o cotidiano dos territórios, o passado e o presente como fonte inesgotável de reflexões e possibilidades de criação de (re)existências coletivas. Como fazemos Momento individual: a facilitadora convida cada pessoa a mergulhar em suas memórias afetivas e, para cada fase da vida, escolher uma música marcante. São quatro tempos diferentes e, para cada um deles, uma canção é escolhida como a mais significativa: desde bem pequena, até 5 anos; depois, a fase escolar até os 12 anos; o início da ... Continuar Lendo

nós, educadoras freirianas [Abigail Torres e Stela Ferreira]

Nesse momento de tributo aos 100 anos de nascimento do Educador Paulo Freire, nossa homenagem se dá reconhecendo as muitas marcas da educação freiriana em nós, associadas à nossa busca constante para avançarmos na direção de uma educação libertária, produtora de uma sociedade mais justa e humana. Somos educadoras! Trabalhamos em processos de educação permanente de equipes que atuam em políticas públicas, seja na gestão, na atenção direta a cidadãs e cidadãos, seja no controle social sobre o Estado. Reconhecer-se educadora freiriana é uma elevada responsabilidade. É colocar-se num lugar em que é imprescindível manter coerência entre o discurso e a prática. Não há pensar certo fora de uma prática testemunhal que o re-diz em lugar de desdizê-lo. Não é possível ao professor pensar que pensa certo mas ao mesmo tempo perguntar ao aluno se “sabe com quem está falando”. Paulo Freire in Pedagogia da Autonomia Costumamos dizer que “ensinamos fazendo”; não discursamos sobre o que deve ser feito.  Experimentamos fazer com as equipes o que esperamos que seja feito com quem elas atendem. Nós as acolhemos e as escutamos; valorizamos o que dizem e o que sabem; ofertamos oportunidades para que esses saberes circulem e trocamos com elas, de ... Continuar Lendo